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Março 2008

Março 02, 2008

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Ni!

Num outro espaço virtual, perguntaram-nos por que a produção acadêmica brasileira parece crescer em volume mas não em relevância medida pelo número de citações. Bien, aqui vão os famosos $0,02 ...

 

Antes de mais nada, essa história de contar absolutamente citações diretas é irracional. Há um sem fim de argumentos e estudos mostrando que isso esconde todo tipo de distorção e má interpretação dos dados.

Há propostas de índices e modelos de avaliação mais adequados, algumas relativamente fáceis de implementar, mas a "comunidade científica" ignora isso, porque as "vozes relevantes" da comunidade científica são, implicitamente, aquelas que estão cômodas no atual esquema.

Isso é um problema muito mais geral e mais complicado do que o proposto, então eu apenas incluo este aviso e não pretendo discutir a respeito aqui.

 

Agora, sobre o tema proposto, há uma maneira simples de visualizar um possível mecanismo, na minha opinião provável e consistente com observações, para a baixa relevância da pesquisa nacional.

Quando você joga um punhado de recursos à comunidade científica de maneira pouco transparente e sem garantias, e os distribui em troca de publicações, o que acontece é que nenhum pesquisador de bom senso vai se dispoôr a investigar hipóteses ousadas, pelo risco constante de ficar sem verba na semana que vem e ver seus alunos de pós-graduação morrerem de fome ou mendigarem na praça do relógio.

Ciência é um investimento de alto-risco, que requer política de estado; mas nosso estado está infestado de neo-coronelismo, que requer apenas demagogia e índices de produtividade para inglês ver. Assim, as agências preferem financiar projetos de produção em série que conseguem travestir de investigação científica, ou organizar parcerias com multinacionais monopolistas do setor tecnológico. Isso quando simplesmente não estão apoiando o feudos desse ou daquele colarinho branco.

No meio disso, é claro que muitos projetos legitimamente científicos deslancham, afinal boa parte dos pesquisadores brasileiros é idealista e não se acovarda diante de sacrifícios pessoais, e uma outra parte simplesmente não saberia fazer outra coisa da vida (rsrs).

Ainda assim, muitos dos que deslancham por puro esforço individual são posteriormente podados, silenciosamente, suas raízes são secas por falta de apoio consistente de longo prazo. Isso ocorre freqüentemente quando não satisfazem os índices irracionais, mas também quando não se alinham com os feudos que sobrevivem através da falácia dos mesmos índices.

E isso faz aparecer essas distorções entre o número de artigos e sua relevância, muito mais do que predileção por este ou aquele grupo de revisores.

 

Não que a falta de integração com o estrangeiro não seja um fator.

Ela o é, mas por outra via: relevância em ciência requer primazia.

Para obtê-la, é preciso estar informado antes dos últimos avanços, e isso não se obtém lendo as edições semanais das revistas científicas.

Quando um artigo relevante é publicado, inevitavelmente, alguns grupos próximos ao que desenvolveu o trabalho já estão a par de parte dos desenvolvimentos e adaptando suas pesquisas a eles.

E em muitas áreas isso vale até para a publicação de pre-prints.

Portanto estar isolados da comunidade científica internacional deixa os pesquisadores brasileiros - literalmente - a ver navios.

Uma das grandes lições da minha experiência de sanduíche em uma das principais universidades americanas foi justamente essa: nós, aqui no tupiniquim, estamos ilhados. A quantidade de conhecimento inédito que trafega nos corredores dessas universidades é ordens de grandeza maior do que aqui.

Essa é mais uma consequência do mesmo mecanismo nefasto de distribuição irracional e pouco confiável de recursos que coloca o pesquisador brasileiro numa constante paranóia.

A pouca transferência que ainda conseguimos de conhecimento inédito para cá, ocorre através de uma faca de dois gumes, mas que é a principal fonte de vida da ciência brasileira: a tal da fuga de cérebros.

Não fôssem os alunos talentosos indo para o exterior em fuga das condições patéticas de trabalho neste país, pouco restaria da ciência relevante produzida aqui. Louvada seja a fuga de cérebros.

 

É ilusão não admitir que ainda somos, para todos os efeitos, uma ciência colonial.

Mas tudo bem, porque é preciso acompanhar a política e a economia, não é? Vejam só, as grandes inovações econômicas dos últimos anos... reis do gado, soja, extrativismo mineral e, agora, biocombústiveis!

Opa, biocombustíveis parece inovador, que nome legal. Qual é a base disso mesmo? Hã? Cana-de-açúcar??? Tá me tirando né...

A grandeza e reconhecimento internacional do nosso país mais uma vez reside no bom e velho "plantation"! Aaah saudoso século XVII, quem disse que não voltarias?!

Que nos conforte o interesse colateral da máquina, a impulsionar ao menos a pesquisa brasileira em agropecuária...

 

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Este post foi originalmente resposta a uma discussão iniciada na comunidade orkutiana do Curso de Ciências Moleculares.

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição.

Postado por Alexandre Hannud Abdo | 7 usuários votaram. 7 votos | 9 comentários