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Fevereiro 2007

Fevereiro 15, 2007

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Esta semana retornei de 6 meses trabalhando num pojeto científico na Columbia University em Nova Iorque. Uma espécie de doutorado sanduíche improvisado com a reserva técnica da fapesp.

Espero escrever mais a respeito dessa experiência em breve, mas das muitas coisas que ela me levou a pensar a respeito, gostaria de discutir uma antes: a "fuga de cérebros".

Tendo partido por apenas seis meses, eu certamente não me qualifico como um cérebro em fuga, porém estando lá pude compreender um pouco melhor essa questão.

Que fique claro que aqui me refiro ao ambiente científico, e não à exportação de profissionais qualificados para exercer atividades técnicas.

 

Fuga de cérebros é o nome dado à saída de pesquisadores brasileiros altamente qualificados ao exterior, em geral à procura de estudos ou trabalho acadêmico-científico.

Já da construção do termo, assume-se que ela é ruim para o país, pois sugere a perda de recursos humanos (fuga) para o desenvolvimento da ciência e tecnologia (de cérebros).

Estar no exterior, ou seja, ser um "cérebro em fuga", ainda que temporária, levou-me a pensar a respeito disso, e tentar perceber o que minha experiência e a dos meus colegas lá poderia ensinar-me a repeito.

 

Fuga de cérebros não é fuga de conhecimento científico. Sendo um dos poucos bens comuns da humanidade, universidades não competem pela ciência. Elas competem por bons pesquisadores para ganhar verbas e prestígio, mas a ciência desenvolvida em um país enriquece a todos.

Além disso, os meios para executar ciência obviamente afetam a "fuga de cérebros", porém a fuga não afeta diretamente os recursos disponíveis para a ciência.

Assim, considerar a fuga como indesejável não apenas ignora a natureza do projeto científico como não oferece solução para o problema da falta de recursos que em parte a causa.

Mais do que isso, apontar a "fuga de cérebros" como razão para criticar a falta de investimento em ciência é seguir uma falsa lógica que, sem fundamento, está fadada a fracassar ou, caso tenha sucesso, a causar problemas ainda mais sérios.

 

Sem "fuga de cérebros", ficamos sem exposição privilegiada a idéias nascentes pelo mundo, passando a depender ainda mais de decifrar publicações para manter-nos atualizados, num mar de artigos cada vez mais vasto e caótico, onde saber a direção a tomar frequentemente vale mais do que saber caminhar rapidamente.

Sem "fuga de cérebros", ficamos sem contato social com meritocracias avançadas, tornando mais fácil criar barreiras a críticas do corporativismo fossilizante que tende a se manifestar nas universidades brasileiras tanto no nível das idéias como dos indivíduos, perpetrando as normas equivocadas que deram origem a essa tendência.

Sem "fuga de cérebros", vamos contra a própria noção de que ciência é um bem comum a ser perseguido livremente por todas as nações e indivíduos, e diante disso torna-se difícil argumentar contra medidas protecionistas claramente injustas e imorais como patentes de genes e medicamentos, que beneficiam apenas os países dominantes e criam barreiras ao desenvolvimento de países periféricos como o Brasil.

 

Assim, deve-se ter mais critério ao criticar-se a "fuga de cérebros".

Evidentemente o volume dela repercute a falta de recursos para a ciência, porém, não havendo recursos, a melhor coisa para a ciência brasileira é que esses cérebros fujam mesmo.

Ainda mais porque, quando os recursos surgirem, o volume se reduz sozinho.

Palavras-chave: ciência, exterior, falta de recursos, fuga de cérebros, new york, nova iorque

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Postado por Alexandre Hannud Abdo | 3 usuários votaram. 3 votos | 7 comentários