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janeiro 10, 2011

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Curioso notar que na academia hoje fale-se, até celebra-se, em literatura eletrônica multimídia e interativa como fronteira do ousado e inovador.

Penso no fato que mesmo a literatura impressa tem muito mais possibilidades multimidiáticas e interativas do que os autores costumam aplicar e os críticos apreciar.

Possibilidades de multimídia literária impressa foram exploradas em graphic novels entrelaçadas com textos, como no caso de Watchmen e outras histórias do Allan Moore.

Mas outros casos de qualidade semelhante são raros, apesar da possibilidade de produção e distribuição em massa estar presente há décadas.

Mesmo o Allan Moore atualmente publica primariamente apenas texto.

Já no quesito interatividade literária impressa, havia os livros-jogo, como as séries de Steve Jackson e Ian Livingston. E depois, já com computadores, os jogos estilo Adventure que nasceram no texto e aos poucos incorporaram o audiovisual e então, nos primórdios da Internet, os Multi-User-Dungeons.

Portanto é dúbio se exaltadas proposições atuais em multimídia e interatividade literária justificam-se para além de aproveitar-se da "febre digital" para reapresentar temas já explorados como novos... possivelmente sem reconhecer tais caminhos.

Evidente que são muito mais ricas as possibilidades atuais.

Mas talvez haja uma falta de percepção do papel da literatura em manifestações ainda mais modernas, já existentes e popularizadas, como nos jogos de computador e nas franquias:

Jogadores de World of Warcraft podem passar dias contando a história de Azeroth, que eles leram dentro e fora do jogo.

Já mais e completamente interativos, fãs de Star Wars, Star Trek ou Senhor dos Anéis - para não falar em todo o universo Otaku - podem passar semanas narrando capítulos paralelos às sagas canônicas, que eles leram em livros, em jogos, escreveram de próprio punho ou representaram em sessões de Role-Playing-Games.

Assim fico em dúvida se uma literatura multimidiática e interativa muito mais rica do que os experimentalistas propõem já não está presente há tempos, em vezes até qualidade superior e mais ousada que o trabalho desses.

Agora, se trata-se apenas de atualizar o formato do livro, retorno ao começo deste texto para apontar, com certo ceticismo, que o "livro interativo multimídia" é pré-eletrônico e apenas um ponto intermediário entre a literatura pura e manifestações literárias já bem difundidas mais ricas em multimídia e interatividade. E que, como ponto intermediário, tem uma trajetória histórica tipicamente aquém de ambos seus vizinhos.

Toda experimentação é bem vinda, mas que reconheça seu contexto para que reconheça a si mesma e, assim, seja construtiva e não redundante!

Abraços,

ale
h
a

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Postado por Alexandre Hannud Abdo

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