Stoa :: Alexandre Hannud Abdo :: Blog :: O ponto cego do debate sobre mudanças climáticas

fevereiro 02, 2010

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Ni!

A questão ambiental é um problema de análise de risco. Ou seja, o que conta não é a confiança em quem está certo, mas a distribuição da confiança pelo ganho ou, no caso, pela perda de cada cenário de escolhas.


Ainda que a comunidade que estuda o assunto estivesse dividida pela metade - o que não está - o produto da confiança pela perda deveria nos levar a tomar atitudes drásticas e imediatas em todos os níveis, porque a perda prevista é tão grande que, multiplicada pela confiança de metade da comunidade, sobrepor-se-ia facilmente a qualquer opinião da outra metade.

De fato o cáculo é mais complicado, mas fica simples porque as atitudes a serem implementadas são economicamente saudáveis, ou seja, levam ao desenvolvimento, potencialmente até maior, apenas por uma outra rota.

Acontece que só levam a um desenvolvimento justo entre os países se todos agirem juntos. Por isso há tanta disputa internacional, porque se todos parerem, todos ganham, mas se um não parar é preciso haver punição proporcional, pois sairá ganhando às custas dos demais.

Portanto é inteligente uma orquestração internacional para atitudes em todos os níveis contra as mudanças climáticas.

De fato, em termos desse tipo de análise, é um "no brainer".


Acontece que tais acordos exporiam países poderosos que desenvolvem-se de forma injusta e teriam de diminuir sua sede ao pote para que outros possam desenvolver-se. Ou seja, um dos grandes obstáculos é que a preocupação com o ambiente de fato acaba tornando-se um mecanismo poderoso de justiça internacional. E é por isso que esses acordos são difíceis, não porque as pessoas acham que este ou aquele cientista está certo ou errado.

A ciência já fez sua parte nesse jogo, independente dela ser conclusiva ou não. Não resta um pingo de dúvida que a ação estratégica é mudar radicalmente os padrões de desenvolvimento e de consumo para harmonizar-se com o meio ambiente.

E mesmo se surgissem amanhã evidências irrefutáveis em contrário - o que não acontecerá porque o problema com a meteorologia é justamente a dificuldade de análises irrefutáveis de médio prazo - a questão do impacto das medidas ecológicas na justiça econômica mundial levaria-nos a querer implementá-las de qualquer forma.


Tais ações ecológicas, seja a nível nacional ou individual, podem não ser necessárias para a sobrevivência dos humanos e certamente não salvam o ecossistema planetário que, neste momento, não precisa ser salvo - apesar da humanidade ter o poder atômico para destruí-lo.

Mas são a coisa inteligente e ética a ser feita em termos dos riscos e da confiança que há nos diversos cenários possíveis.

Abraços,

ale

~~

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição.

Postado por Alexandre Hannud Abdo

Comentários

  1. Ewout ter Haar escreveu:

    O seu raciocínio nos primeiros dois parágrafos foi usado por Pascal para mostrar que devíamos viver como Deus existisse e que o LHC não deveria ser operado. Me parece que isto enfraquece o resto do argumento, que é interessante.

    Ewout ter HaarEwout ter Haar ‒ terça, 02 fevereiro 2010, 09:39 -02 # Link |

  2. Antonio Candido escreveu:

    O argumento é na linha do "princípio da preucação", mas o texto falha em reconhecer suficientemente que esta preucação também tem custos. Suponhamos que uma medida para combater as mudanças climáticas fosse taxar os combustíveis fósseis para coibir seu consumo. Nos EUA ou em São Paulo talvez isto signifique buscar outras formas de transporte ou carros mais econômicos, mas num país africano talvez isto signifique uma menor produção agrícola, mais gente subnutrida, maior mortalidade.

    Antonio C. C. GuimarãesAntonio Candido ‒ terça, 02 fevereiro 2010, 11:56 -02 # Link |

  3. Alexandre Hannud Abdo escreveu:

    Ewout, acho que a diferença com a aposta de Pascal e o risco LHC é que em ambos os casos há uma mistura de lógica com especulação.

    As críticas e desmanches da aposta na própria página que você aponta não são sobre a lógica da análise de risco, mas sobre suposições que pascal faz sobre a religião.

    No caso do risco LHC, ele foi claramente refutado e, não tendo fundamento, não há motivo para levá-lo em consideração. Diferente do caso do clima onde uma refutação que se sustente não parece possível. Além disso, alguns podem argumentar que existir num universo sem poder investigar os fundamentos da física é pior que passar a eternidade no inferno ;-)

     

    Antonio, você está apresentando precisamente a questão que torna esses acordos ecológicos difíceis: eles só são efetivos se forem minimamente justos e isso significa que países que mais abusam precisam abrir mão de mais, inclusive na transferência de tecnologia limpa. Isso só reforça a necessidade de tecer esses acordos. Pois seus objetivos, como disse, não são salvar o planeta, mas estabelecer critérios éticos para a sustentabilidade da humanidade.

     

    PS: eu escrevera esse texto num e-mail pruma lista, mas tenho tentado me educar a blogar quaisquer e-mails argumentativos para buscar críticas mais amplas. Estou contente :)

    Abs,

    ~~

    Alexandre Hannud AbdoAlexandre Hannud Abdo ‒ terça, 02 fevereiro 2010, 18:06 -02 # Link |

  4. Clarice Alegre Petramale escreveu:

    Ainda alimentando esta discussão... se temos ( os humanos) uma excelente performance de reação quando nos sentimos agudamente ameaçados, frequentemente subestimamos riscos estatísticos que se realizarão no futuro. E raramente trocamos uma pequena satisfação garantida no presente por um grande benefício provável no futuro...

    É essa característica do cérebro humano que explica porque é tão dificil adotar hábitos saudáveis, por exemplo, mesmo com todas as evidëncias científicas que já dispomos!

    Clarice Alegre PetramaleClarice Alegre Petramale ‒ terça, 02 fevereiro 2010, 22:05 -02 # Link |

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