Stoa :: Alexandre Hannud Abdo :: Blog :: O antropocentrismo na "questão ecológica"

setembro 24, 2009

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O discurso ecológico corrente, dentro ou fora do capitalismo, é antropocêntrico. A razão é que a própria idéia de natureza é antropocêntrica.

A ecologia não antropocêntrica não se incomoda com a atividade humana; ela não vai parar, nem suspirar, se o "homem" destruir a "natureza" e a si mesmo no processo.

A idéia toda de que a atividade humana é "problemática" só pode ser definida em termos do homem.

Biodiversidade? Interessa a quem? E que biodiversidade?

Ao homem. Aquela à que ele está adaptado.

A história da vida na terra passou por períodos de maior ou menor diversidade biológica e não por isso esteve a perigo, apenas tomou caminhos diferentes.

Se as baleias extinguirem-se, outra forma de vida tomará seu lugar para aproveitar os recursos naturais disponíveis. É muito triste pras baleias deixarem de existir, mas por que não é ainda mais triste essa outra forma de vida sequer ter a oportunidade de existir?

Ainda se a substituta for uma forma de vida já existente, por que dois seres vivos com uma parte do código genético diferente é melhor que dois com aquela parte do código genético, ou mesmo todo ele, igual?

E por que esse padrão só se aplica à "natureza" e não ao homem? Ou vamos impôr cotas de reprodução humana e punir gêmeos idênticos?

E mesmo essas perguntas já são afetadas pelo antropocentrismo.

A sustentação da biosfera não precisa de nenhum animal explorando aquele recurso naquele momento. De fato, enquanto houver um Sol, e portanto pelas próximas eras e eras, a vida e a diversidade na terra está segura até dos piores pesadelos nucleares.

E nem mencionamos os fungos - que crescem até na estação espacial - e as bactérias - que podem viver tanto em pessoas como em vulcões - onde está a maior parte da diversidade e que não corre risco nenhum com a atividade humana.

E se tudo isso acabar? Bem, a Terra volta a ser como os inúmeros planetas espalhados por aí, dançando na ciranda do universo.

Assim, a "questão ecológica" é inevitavelmente antropocêntrica, criticar o antropocentrismo por estar presente é absurdo. Contudo, permanece válida a crítica da máscara posta sobre esse antropocentrismo.

Enquanto não se formular o problema deixando claro como e onde o antropocentrismo entra na história, a sociedade não poderá discutí-lo honestamente e chegar a uma solução ética e democrática.

Conversamente, enquanto insistir-se em esquivar-se do antropocentrismo inerente à questão, colocando o foco na "natureza" como se essa já não representasse o homem, continuaremos incapazes de uma discussão honesta e a agenda política permanecerá manipulada pelos grupos que controlam a mensagem.

Recomendo dar uma olhada na abordagem do tema por alguns professores atuais interessantes como Timothy Morton e Slavoj Zizek:

Morton

Zizek

Abreijos,

ale

~Ni!~

OBS: Esse post é algum tipo de diálogo com este outro do Andre, mas que ficou muito denso para um comentário.

Palavras-chave: antropocentrismo, ecologia, natureza

Postado por Alexandre Hannud Abdo | 2 usuários votaram. 2 votos

Comentários

  1. Rafael Nora Tannus escreveu:

    Ni para você também !

    Concordo plenamente com o seu argumento. Acho que o colega André se perdeu um pouco na pegada da questão.

    O raciocício, puramente materialista, de que a vida, como o homem, tanto faz quanto tanto fez para o universo é, sem dúvida, o ponto de partida para a questão.

    A humanidade é, em última análise, um bando de macaquinhos neotênicos que acabaram de se dar conta que a festa vai acabar.

    Pobres das baleias e dos micos, mas em última análise, a própria idéia moral da necessidade de conservação é uma criação antropocêntrica, porque é baseada em moral, ética e em auto-sobrevivência. Existe coisa mais antropocêntrica do que dizer "pobre isto ou pobre aquilo?".

    Se o ponto partida é a inocuidade da vida, e do homem, para o universo, a linha base da discussão é a competição interespecífica entre a nossa espécie e as outras. Foi este impulso (biológico) que motivou o comportamento da nossa espécie até agora, e é a revisão deste elemento que deu origem ao movimento ambientalista.

    Estes argumentos podem parecer pró-homem ou pró-progresso-a-qualquer-custo, mas não são. Álias, muito pelo contrário. Identificar as linhas bases e os pontos de partida são apenas isto, o começo.

    O que nos separa dos macacos é justamente aquilo que nós construimos, arbitrariamente e consensualmente, como espécie, aquilo que nós faz humanos. Defender o progresso a qualquer custo é apenas o que se espera dos macacos, não o que se espera de homens.

    Coisas quase irrelevantes, como a ciência, a moral e a ética são aquilo que nós chamamos de autopomorfias, características únicas e exclusivas de uma espécie, que as separa das demais. São estas coisas que nos separam dos macacos, e são estas coisas que levaram a construção da própria ecologia e do movimento ambientalista.

    Rafael Nora TannusRafael Nora Tannus ‒ quinta, 24 setembro 2009, 17:22 BRT # Link |

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