Stoa :: Alexandre Hannud Abdo :: Blog :: Nova Iorque e a fuga de cérebros

fevereiro 15, 2007

default user icon

Esta semana retornei de 6 meses trabalhando num pojeto científico na Columbia University em Nova Iorque. Uma espécie de doutorado sanduíche improvisado com a reserva técnica da fapesp.

Espero escrever mais a respeito dessa experiência em breve, mas das muitas coisas que ela me levou a pensar a respeito, gostaria de discutir uma antes: a "fuga de cérebros".

Tendo partido por apenas seis meses, eu certamente não me qualifico como um cérebro em fuga, porém estando lá pude compreender um pouco melhor essa questão.

Que fique claro que aqui me refiro ao ambiente científico, e não à exportação de profissionais qualificados para exercer atividades técnicas.

 

Fuga de cérebros é o nome dado à saída de pesquisadores brasileiros altamente qualificados ao exterior, em geral à procura de estudos ou trabalho acadêmico-científico.

Já da construção do termo, assume-se que ela é ruim para o país, pois sugere a perda de recursos humanos (fuga) para o desenvolvimento da ciência e tecnologia (de cérebros).

Estar no exterior, ou seja, ser um "cérebro em fuga", ainda que temporária, levou-me a pensar a respeito disso, e tentar perceber o que minha experiência e a dos meus colegas lá poderia ensinar-me a repeito.

 

Fuga de cérebros não é fuga de conhecimento científico. Sendo um dos poucos bens comuns da humanidade, universidades não competem pela ciência. Elas competem por bons pesquisadores para ganhar verbas e prestígio, mas a ciência desenvolvida em um país enriquece a todos.

Além disso, os meios para executar ciência obviamente afetam a "fuga de cérebros", porém a fuga não afeta diretamente os recursos disponíveis para a ciência.

Assim, considerar a fuga como indesejável não apenas ignora a natureza do projeto científico como não oferece solução para o problema da falta de recursos que em parte a causa.

Mais do que isso, apontar a "fuga de cérebros" como razão para criticar a falta de investimento em ciência é seguir uma falsa lógica que, sem fundamento, está fadada a fracassar ou, caso tenha sucesso, a causar problemas ainda mais sérios.

 

Sem "fuga de cérebros", ficamos sem exposição privilegiada a idéias nascentes pelo mundo, passando a depender ainda mais de decifrar publicações para manter-nos atualizados, num mar de artigos cada vez mais vasto e caótico, onde saber a direção a tomar frequentemente vale mais do que saber caminhar rapidamente.

Sem "fuga de cérebros", ficamos sem contato social com meritocracias avançadas, tornando mais fácil criar barreiras a críticas do corporativismo fossilizante que tende a se manifestar nas universidades brasileiras tanto no nível das idéias como dos indivíduos, perpetrando as normas equivocadas que deram origem a essa tendência.

Sem "fuga de cérebros", vamos contra a própria noção de que ciência é um bem comum a ser perseguido livremente por todas as nações e indivíduos, e diante disso torna-se difícil argumentar contra medidas protecionistas claramente injustas e imorais como patentes de genes e medicamentos, que beneficiam apenas os países dominantes e criam barreiras ao desenvolvimento de países periféricos como o Brasil.

 

Assim, deve-se ter mais critério ao criticar-se a "fuga de cérebros".

Evidentemente o volume dela repercute a falta de recursos para a ciência, porém, não havendo recursos, a melhor coisa para a ciência brasileira é que esses cérebros fujam mesmo.

Ainda mais porque, quando os recursos surgirem, o volume se reduz sozinho.

Palavras-chave: ciência, exterior, falta de recursos, fuga de cérebros, new york, nova iorque

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição.

Postado por Alexandre Hannud Abdo | 3 usuários votaram. 3 votos

Comentários

  1. Ewout ter Haar escreveu:

    Debate! Concordo com você que meramente dizer "fuga de cérebros!" é um argumento muito fraco para reivindicar mais recursos para fazer ciência. Este argumento deve ser feito baseado nos benefícios intrínsicos do empreendimento científico para a sociedade.

    Mas definir uma estadia de seis meses no exterior como "fuga de cérebros" me parece estranho. No maior parte do argumento na verdade está falando de "passeio de cérebros". E todo mundo concorda que isto é uma coisas boa, desejável, etc., por todos os motivos que expôs. Mas como é normalmente entendido, "fuga de cérebros" é o que acontece quando pessoas "altamente qualificadas" dedicam os anos mais produtivos num outro país. E me parece que é perfeitamente razoável se preocupar com isto.

    Na verdade não vejo muita diferença entre pessoas  "altamente qualificadas" e esse pessoal do interior de Minas Gerais. Quando um grande quantidade de pessoas não querem morar no seu país, como no caso da Holanda após a segunda Guerra, isto é motivo de preocupação e uma indicação que algo está errado. 

    Ewout ter HaarEwout ter Haar ‒ quinta, 15 fevereiro 2007, 11:48 BRST # Link |

  2. Al Scandar Solstag escreveu:

    Olá Ewot! :D

    Eu não quis dizer que minha saída do país foi uma fuga, ela apenas fez-me pensar sobre o tema.

    Claramente não há controvérsia sobre o benefício de passeios como o que eu fiz. 

    Porém meu argumento trata de fugas de fato, onde a pessoa vai embora sem planos para voltar.

    (editei o post para deixar isso mais claro) 

    Concordo, como você disse sobre a Holanda no pós-guerra e sobre o pessoal do interior de Minas, que é preocupante quando as pessoas não querem viver mais no seu país.

    Porém o meu argumento é que isso é um pouco diferente na ciência, porque se não há recursos para pesquisadores brasileiros desenvolverem seu trabalho aqui, a melhor coisa para o desenvolvimento do próprio país é que eles vão fazê-lo lá fora, mesmo que sem perspectivas de retornar.

    E por causa disso é improdutivo criticar a "fuga de cérebros" por si.

    Devemos nos concentrar na causa dos problemas e nos sintomas que são indesejáveis em qualquer  grau, e estes não faltam.

    Abraço,

    ale

     

    Alexandre Hannud AbdoAl Scandar Solstag ‒ sexta, 16 fevereiro 2007, 16:23 BRST # Link |

  3. Visitante escreveu:

    essa matériá é a que eu to aprendendo e eu levei isso pra aula e  tirei 9 de 10 VALEUUUUUUUUUU

    default user iconVisitante ‒ quarta, 27 fevereiro 2008, 17:22 BRT # Link |

  4. Visitante escreveu:

    Concordo em parte, só acho que um cara que passa 4 anos fazendo doutorado no exterior pago pelo dinheiro do contribuinte já criou expertise suficiente para desenvolver suas atividades no país.

    Falou 

     

    default user iconVisitante ‒ quinta, 17 julho 2008, 22:18 BRT # Link |

  5. fabio_ escreveu:

    a matéria é bem interessante...

    default user iconfabio_ ‒ quarta, 10 setembro 2008, 16:31 BRT # Link |

  6. Visitante escreveu:

    adorei vai me ajudar muito.bjs jessica

    default user iconVisitante ‒ sexta, 21 novembro 2008, 10:05 BRST # Link |

  7. Alexandre Simionato Bueno escreveu:

    Caro Alexandre. Li somente hoje seu post.

     

    Fuga de cérebros não se critica, se lamenta. Claro que precisamos reforçar a política de intercâmbios e o contato entre sitios científicos mais avançados é um exercício mais do que salutar e fundamental.O grande problema é qual o impacto que tais trocas de experiência têm o desenvolvimento da ciência pura e aplicada no Brasil.

     

    Não basta à FAPESP e outros ourgãos darem oportunidade aos mais qualificados de irem para fora e pesquisarem. É preciso fazer com que quando os cientistas voltem, encontrem uma base sólida com laboratórios equipados, linhas de financiamento para projetos e, principalmente, metas tangíveis para a produção científica com premios para os pesquisadores mais eficientes.

    Gostei muito de seu texto. Parabéns! 

     

    Alexandre Simionato BuenoAlexandre Simionato Bueno ‒ domingo, 18 janeiro 2009, 18:22 BRST # Link |

Você deve entrar no sistema para escrever um comentário.

Termo de Responsabilidade

Todo o conteúdo desta página é de inteira responsabilidade do usuário. O Stoa, assim como a Universidade de São Paulo, não necessariamente corroboram as opiniões aqui contidas.