Stoa :: Alexandre Hannud Abdo :: Blog :: Produção acadêmica brasileira em questão.

março 03, 2008

default user icon

Ni!

Num outro espaço virtual, perguntaram-nos por que a produção acadêmica brasileira parece crescer em volume mas não em relevância medida pelo número de citações. Bien, aqui vão os famosos $0,02 ...

 

Antes de mais nada, essa história de contar absolutamente citações diretas é irracional. Há um sem fim de argumentos e estudos mostrando que isso esconde todo tipo de distorção e má interpretação dos dados.

Há propostas de índices e modelos de avaliação mais adequados, algumas relativamente fáceis de implementar, mas a "comunidade científica" ignora isso, porque as "vozes relevantes" da comunidade científica são, implicitamente, aquelas que estão cômodas no atual esquema.

Isso é um problema muito mais geral e mais complicado do que o proposto, então eu apenas incluo este aviso e não pretendo discutir a respeito aqui.

 

Agora, sobre o tema proposto, há uma maneira simples de visualizar um possível mecanismo, na minha opinião provável e consistente com observações, para a baixa relevância da pesquisa nacional.

Quando você joga um punhado de recursos à comunidade científica de maneira pouco transparente e sem garantias, e os distribui em troca de publicações, o que acontece é que nenhum pesquisador de bom senso vai se dispoôr a investigar hipóteses ousadas, pelo risco constante de ficar sem verba na semana que vem e ver seus alunos de pós-graduação morrerem de fome ou mendigarem na praça do relógio.

Ciência é um investimento de alto-risco, que requer política de estado; mas nosso estado está infestado de neo-coronelismo, que requer apenas demagogia e índices de produtividade para inglês ver. Assim, as agências preferem financiar projetos de produção em série que conseguem travestir de investigação científica, ou organizar parcerias com multinacionais monopolistas do setor tecnológico. Isso quando simplesmente não estão apoiando o feudos desse ou daquele colarinho branco.

No meio disso, é claro que muitos projetos legitimamente científicos deslancham, afinal boa parte dos pesquisadores brasileiros é idealista e não se acovarda diante de sacrifícios pessoais, e uma outra parte simplesmente não saberia fazer outra coisa da vida (rsrs).

Ainda assim, muitos dos que deslancham por puro esforço individual são posteriormente podados, silenciosamente, suas raízes são secas por falta de apoio consistente de longo prazo. Isso ocorre freqüentemente quando não satisfazem os índices irracionais, mas também quando não se alinham com os feudos que sobrevivem através da falácia dos mesmos índices.

E isso faz aparecer essas distorções entre o número de artigos e sua relevância, muito mais do que predileção por este ou aquele grupo de revisores.

 

Não que a falta de integração com o estrangeiro não seja um fator.

Ela o é, mas por outra via: relevância em ciência requer primazia.

Para obtê-la, é preciso estar informado antes dos últimos avanços, e isso não se obtém lendo as edições semanais das revistas científicas.

Quando um artigo relevante é publicado, inevitavelmente, alguns grupos próximos ao que desenvolveu o trabalho já estão a par de parte dos desenvolvimentos e adaptando suas pesquisas a eles.

E em muitas áreas isso vale até para a publicação de pre-prints.

Portanto estar isolados da comunidade científica internacional deixa os pesquisadores brasileiros - literalmente - a ver navios.

Uma das grandes lições da minha experiência de sanduíche em uma das principais universidades americanas foi justamente essa: nós, aqui no tupiniquim, estamos ilhados. A quantidade de conhecimento inédito que trafega nos corredores dessas universidades é ordens de grandeza maior do que aqui.

Essa é mais uma consequência do mesmo mecanismo nefasto de distribuição irracional e pouco confiável de recursos que coloca o pesquisador brasileiro numa constante paranóia.

A pouca transferência que ainda conseguimos de conhecimento inédito para cá, ocorre através de uma faca de dois gumes, mas que é a principal fonte de vida da ciência brasileira: a tal da fuga de cérebros.

Não fôssem os alunos talentosos indo para o exterior em fuga das condições patéticas de trabalho neste país, pouco restaria da ciência relevante produzida aqui. Louvada seja a fuga de cérebros.

 

É ilusão não admitir que ainda somos, para todos os efeitos, uma ciência colonial.

Mas tudo bem, porque é preciso acompanhar a política e a economia, não é? Vejam só, as grandes inovações econômicas dos últimos anos... reis do gado, soja, extrativismo mineral e, agora, biocombústiveis!

Opa, biocombustíveis parece inovador, que nome legal. Qual é a base disso mesmo? Hã? Cana-de-açúcar??? Tá me tirando né...

A grandeza e reconhecimento internacional do nosso país mais uma vez reside no bom e velho "plantation"! Aaah saudoso século XVII, quem disse que não voltarias?!

Que nos conforte o interesse colateral da máquina, a impulsionar ao menos a pesquisa brasileira em agropecuária...

 

~~

Este post foi originalmente resposta a uma discussão iniciada na comunidade orkutiana do Curso de Ciências Moleculares.

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição.

Postado por Alexandre Hannud Abdo | 7 usuários votaram. 7 votos

Comentários

  1. Tom escreveu:

    Opa, opa, opa!

    Uma voz na academia tupiniquim se erguendo contra coisas que meio mundo discute apenas nos corredores?! Estou espantado!  (será que Buda me ouviu? rs)

    Cadê os outros estudantes de pós-graduação para relatarem problemas e mais problemas?! (será mesmo que nossos estudantes de pós-graduação possuem algum espítito crítico? Caso não, o que aposto para muitos, para que será que estão servindo algumas graduações, para formar apenas técnicos ou meros diplomados?) Esses mesmos pós-graduandos que viram os professores das universidades privadas (nos dois sentidos), que também acabam se calando sobre a situação do lodo em que estão (afinal, eles precisam ter um ganha pão, né?).

    Cadê os pesquisadores que só sabem mesmo é reclamar para o vizinho ao lado (quando fazem isso!)? (também há os que vivem de fofoquinhas e métodos arcaicos de trocarem farpas (pessoais!) entre si)

    Cadê nossos seres pensantes que não se calam diante dos problemas (em todos setores) que só não vê (covardia, rabo preso, o quê?) quem não quer?

    Um idealista pensando: eis que surgirá um dia que a academia brasileira não será repleta por covardes.

    Um realista: será?

    A fonte dos dados que o Abdo começou o post: Fôlego crescente - Produção acadêmica bate recorde no país, embora seu impacto ainda não seja tão expressivo (Agosto de 2007)

    Qual a diferença dos anúncios de números sobre produção científica na revista FAPESP com as dos políticos em época de campanha?

    default user iconTom ‒ segunda, 03 março 2008, 00:31 -03 # Link |

  2. Tom escreveu:

    Hehehehe, eu estava editando o comentário e não vi que ele foi re-editado. A fonte acima é sobre os ex-dados que o Abdo passou. :-P

    default user iconTom ‒ segunda, 03 março 2008, 00:36 -03 # Link |

  3. Tom escreveu:

    Abdo, uns tópicos na comunidade Física (orkut) relacionados ao assunto:

    default user iconTom ‒ segunda, 03 março 2008, 01:09 -03 # Link |

  4. Rudolf de Almeida Prado Hellmuth escreveu:

    Eu vejo alguns problemas muito sérios no meio acadêmico brasileiro (pelo menos do qual eu participo: eng. mecânica) e pelo que alguns amigos meus de outras áreas contam. Esses problemas fazem parte de um ciclo vicioso em torno da universidade. Esse ciclo vicioso tem dinâmica estável e é muito difícil perturbar o sistema. Muita energia! Seria muito traumático. Muitos sofreriam.

    (1) A cultura universitária brasileira não é direcionada para a ampliação do conhecimento e da técnica, a universidade aqui forma elite. Isso é histórico. Elite para ocupar primeiramente posições em orgãos públicos (na maior parte do brasil) e posições em grandes empresas (principalmente no sul e sudeste). Não se preocupa que a elite aprenda a raciocinar de maneira lógica e crítica. Isso não precisa, a macacada copia todo mundo e toca a máquina.

    (1.1) Obs.: Aqui no Brasil é bonito ser "Doutô". É muito importante se ter um diploma universitário para se ter uma carreira de sucesso. Os salários dos bacharéis de faculdades tradicionais chegam a ser uma ordem de grandeza (>10x) maiores do que bons funcionários sem diploma. Então agora existem milhares de faculdades particulares de esquina distribuindo diplomas de bacharel para cursos técnicos. O que aprenderiam em 2 anos é dado em 4, e pagam 4.

    (2) A vontade de entender como uma coisa funciona, que é o desejo primordial da ciência é quase inexiste. Aqui na universidade, aprende-se o que está nos livros. O aluno é um copiador do que está escrito nos livros e notas de aula em papéis amarelados. As provas, em geral, têm as mesmas questões que as de todos anos anteriores, mudando alguns parâmetros. Se o aluno está interessado em tirar boas notas, o negócio é treinar a fazer exercícios. Resolva a lista! Não é preciso entender de fisica e matemática, se vc for parar para refletir e experimentar, está perdendo seu tempo. 

    (3) Os professores são na maioria brasileiros, criados nessa cultura da cópia do conhecimento (ou melhor, da cópia do que está escrito), então a maioria participa ativamente para a manutenção do status quo. Esses são os famosos picaretas. Não entendem muito sobre o que falam, fazem pose de bonsões e publicam trabalhos irrelevantes (as vezes plágios). Esses nunca tiveram que realizar um projeto em que os resultados já não fossem óbvios. Não tiveram a frustração do fracasso pela ignorância, que leva ao questionamento dos fenômenos (é ciência!). Eles fingem que entendem de tudo, mas na realidade não entendem não. Quando um aluno pergunta alguma coisa fora dos livros, eles enrolam...enrolam... e tentam fazer o aluno acreditar que o problema de não entender está com ele. (Vocês aqui já devem ter passado por esta experiência)

     

    (Tenho mais para dizer, mas vou deixar para outra hora.)

     

    Alguns já devem ter ouvido falar que o Richard Feynman, fisico americano e prêmio Nobel, lecionou no Rio de Janeiro por um ano mais ou menos. Ele conta no seu fantárico livro "Surely You're Joking, Mr. Feynman! (Adventures of a Curious Character)"(altamente recomendável) sobre as suas experiências no ano que passou aqui. O capítulo que ele conta sobre o Brasil está disponível em pdf no domínio da UFES. O capítulo "O Americano outra vez!" é mais que altamente recomendável.

    default user iconRudolf de Almeida Prado Hellmuth ‒ segunda, 03 março 2008, 11:32 -03 # Link |

  5. Rudolf de Almeida Prado Hellmuth escreveu:


    (4) Não se discute ciência nem nada na academia aqui no Brasil. Nunca vi. Quando há um congresso e alguém apresenta um trabalho ruim, a platéia fica de cara, mas não critica muito para não ofender o palestrante. Quando há uma mesa redonda, cada um fala o que entende ser o motivo da mesa e não se quer escuta os outros. Aqui os "cientistas" fazem pose de sabichão. Fazem de tudo para ninguém ver a sua ignorância, como se isso fosse uma fraquesa - um pecado. Cada um fica no seu buraco fazendo o seu trabalhinho. Isso faz as coisas andarem muito devagar por aqui. Nunca estudei fora, só li sobre as universidades de fora. Parece que lá fora os pós graduandos estão toda hora apresentando os seus trabalhos uns para os outros e para quem mais estiver interessado, dentro do departamento, enquanto estão desenvolvendo o trabalho. Aqui é comum isso acontecer somente na conclusão do trabalho.

     

    O desenvolvimento científico é mais eficiente com dialética. 

    default user iconRudolf de Almeida Prado Hellmuth ‒ segunda, 03 março 2008, 11:58 -03 # Link |

  6. Francisco M Neto escreveu:

    Isso tudo me parece um resultado inevitável num país como o Brasil. É a união do "publish or perish" com a mania do brasileiro de depender do governo pra tudo e a "camaradagem" de quem quer que esteja mandando esta semana para com os seus apadrinhados.

    Tudo isso temperado com o velho "jeitinho" brasileiro, que fode tudo, e a inépcia generalizada, que se manifesta através do "em time que está ganhando não se mexe".

    E tem também os aspectos que o Rudolf enumerou aí em cima, com grande destaque para o primeiro deles. Para a maioria das pessoas a universidade é questão de status, não de busca de conhecimento.

    O Brasil quer ser grande, mas em vez de seguir o caminho que os outros seguiram ele prefere "dar um jeitinho" e ver se acha um atalho.

    E, como diz o conhecimento popular, um atalho é o maior caminho possível entre dois pontos.

    default user iconFrancisco M Neto ‒ sábado, 08 março 2008, 14:30 -03 # Link |

  7. Ewout ter Haar escreveu:

    nós, aqui no tupiniquim, estamos ilhados. A quantidade de conhecimento inédito que trafega nos corredores dessas universidades é ordens de grandeza maior do que aqui.

    Este afirmação me chamou atenção. Na luz da acesso à informação sem precedentes na história que a Web representa, sobretudo à literatura científica (apesar dos Elseviers da vida, mas para quem é da USP, tanto faz) me surpreendeu ouvir isto de um Físico teórico. Sim, é mais difícil publicar em revistas de renome se não for "de dentro", sim, insumos e equipamentos para experiências são complicados de obter. Mas será que é a falta de conhecimento "inédito" que prejudica a ciência brasileira?

    Mas deve de ter um fundo de verdade: falei com John Wilbanks após a sua apresentação aqui e ele contou sobre a importância de ter um escritório num corredor em MIT junto com os inventores de LISP e TCP/IP. Segundo ele, o papo na copa do café ainda não consegue se reproduzir online (embora que é isto que estamos tentando fazer aqui no Stoa). Este tipo de interação parece mesmo uma coisa essencial de ter.

    Ewout ter HaarEwout ter Haar ‒ segunda, 10 março 2008, 11:46 -03 # Link |

  8. Tom escreveu:

    Estava nessa conversa quando o John Wilbanks falou isso. Lembrei justamente desse post do Abdo, mesmo porque, quando eu estava na minha graduação, tentei organizar algo dessa natureza, pois eu sentia falta dessa conversa nos corredores sobre física (que eu ficava sabendo através da leitura de livros). Durante a pós, junto com o Abdo, fizemos algo parecido, mas mais informal.

    Por um lado temos alunos que não estão acostumados com um ambiente assim (acho que ninguém aprende isso no colégio). Por outro, não vejo professores e alunos de pós que estimulem mudar esse quadro. Se existem, é uma minoria.

    default user iconTom ‒ segunda, 10 março 2008, 12:42 -03 # Link |

  9. Pedro Souza da Silva escreveu:

    Primeiramente gostaria de parabenizar a todos pelo debate. No Brasil perguntas verdadeiras são chamadas de provocação.

    O problema é que se houvesse um auditório que comportasse TODOS os alunos da USP e perguntássemos "quem aqui NÃO tem um pensamento crítico?" ninguém levantaria a mão. "Mas como? Eu passei no vestibular! Eu sei falar mal da Veja! Eu sei falar mal do governo! Eu sei falar mal de tudo! Como EU não poderia ter um pensamento crítico"

    Se pensarmos que a USP não existe, e sim a comunidade de alunos, professores e funcionários que a compõem, o próximo passo aponta pra resolução dos NOSSOS problemas e não dos problemas DELES (daquela comunidade de ELES imaginários onde vivem todos os maus governantes, maus alunos, maus internautas, más donas de casa, maus professores etc, etc, etc, e pra onde jogamos todas as culpas de nosso mundo)

    Fiz questão de repassar a discussão do blog em formato Word pra todos os amigos que acessam de servidores que bloqueiam a palavra blog.

    Abraço,
    Pedro

    Pedro Souza da SilvaPedro Souza da Silva ‒ sábado, 13 dezembro 2008, 15:23 -02 # Link |

Você deve entrar no sistema para escrever um comentário.

Termo de Responsabilidade

Todo o conteúdo desta página é de inteira responsabilidade do usuário. O Stoa, assim como a Universidade de São Paulo, não necessariamente corroboram as opiniões aqui contidas.