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Maio 23, 2012

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Ni!

Há duas décadas atrás, um ainda jovem Movimento Software Livre alertava o mundo de que o grande limitante para o avanço das tecnologias e de seu usufruto pleno e ético pela sociedade era o controle sobre o código fonte executado pela imensa maioria dos computadores, praticamente dominados por uma só empresa.

Através do avanço da Internet, impulsionado por tecnologias desenvolvidas pelo movimento, esse domínio caiu e ainda hoje estamos a assimilar mudanças de paradigma muito além do prometido.

Hoje, e de fato já há alguns anos, parte do Movimento Software Livre começou um novo alerta. O grande limitante para o avanço das tecnologias e de seu usufruto pleno e ético pela sociedade ganhou um outro aspecto, o controle dos dados e da interoperabilidade dos aplicativos que os manipulam. Praticamente dominados por três empresas: Google, Facebook e Apple.

Enquanto a resposta anterior foi criar um sistma operacional livre, hoje conhecido por GNU/Linux, a resposta atual iniciou-se com a conceituação de serviço federado e autônomo, o desenvolvimento da licença AGPL, e uma chamada à produção de plataformas que substituam os atuais monopólios.

Explico:

Federado é o serviço que funciona como o email, onde eu posso escolher meu provedor e interoperar com quem escolheu outro naturalmente, através de protocolos estabelecidos por considerações técnicas e sociais e não pelo interesse unilateral da maior empresa.

Pense num usuário do Facebook adicionando um usuário do Google+, ou alguém usando o Google Apps para colaborar com um usuário do Office 360, alguém usando o Twitter para seguir um Tumblr, ou postando uma vídeo resposta no Vimeo para um vídeo no Youtube. Nada disso é possível hoje, pois na ausência desses protocolos, cada serviço origina um grande monopólio para o qual é vantagem manter os usuários dependentes de si, evitando inovações maiores do que a altura dos seus muros, mesmo que elas sejam de interesse dos usuários.

Autônomo, um conceito mais novo, é o serviço onde o provedor não tem controle sobre os seus dados, nem legalmente, nem tecnicamente, podendo os dados inclusive estar hospedados em um outro provedor, com o qual o primeiro interopera através de protocolos estabelecidos por considerações técnicas e sociais e não pelo interesse unilateral da maior empresa.

O email ainda serve de exemplo, pois você pode fazer o download de todas as suas mensagens e carregá-las em outro provedor, como também pode encriptar suas mensagens ao armazená-las, de forma a dificultar o acesso do provedor ao conteúdo delas. Serviços autônomos, contudo, consideram a separação entre serviço e dados de forma ainda mais implícita. Na sua forma mais avançada, você escolhe dois provedores: um que hospedará seus dados e outro que oferece os aplicativos. Você pode, a qualquer momento, trocar seu provedor de aplicativos mantendo os seus dados no mesmo lugar, ou vice-versa. Além dos ganhos evidentes em privacidade, isso promove a concorrência entre ofertas de dados e aplicativos, como também a interoperabilidade dos dados, libertando o usuário da necessidade, e até mesmo da conveniência, de usar um único provedor para todos os serviços.

Mas, mais do que isso, serviços federados e autônomos desbloqueiam uma mágica que ainda hoje a Internet não nos permite usufruir: a possibilidade de processar esses dados para nossas necessidades específicas, ignoradas pela abordagem "uma interface, um algoritmo" dos mega provedores, e todo um mercado de personalização da informação que permanece subdesenvolvido. A princípio isso terá imenso significado para a capacidade de empresas estudarem e transformarem seus processos e produtividade, hoje sequestrados pelas grandes plataformas para qualquer coisa mais moderna do que email.

Essa personalização estende-se da escolha da interface e organização dos dados até os algoritmos que os processam, e mais além com o uso de inferência estatística e inteligência artificial para enriquecer as informações. E assim, aos poucos, essas práticas entrarão também no cotidiano das pessoas, permitindo que o usuário organize as suas informações pessoais da forma como organiza seu pensamento e sua vida, refletindo a individualidade das suas relações e tornando sua experiência mais natural e prazeirosa, reduzindo o stress informacional.

Uma boa metáfora aqui é a moda. Hoje convivemos com apenas três grifes de informação, mas que estão funcionalmente divididas: uma orientada para o trabalho, outra para a vida pessoal e consumo, e por fim uma para o deleite focado na elite. Ou seja, cada domínio da vida só nos dá uma única opção de vestimenta! Estamos, aqui, presos num espaço de extrema subutilização da criatividade humana.

Bem, por uma provocação do Paulo Meirelles a indicar nomes internacionais para convidados do Fórum Internacional de Software Livre deste ano, acabei compilando num email para a lista de discussão do Centro de Competência em Software Livre da USP uma conjunto de projetos que inovaram substancialmente na direção discutida acima, e então o Luciano Ramalho convenceu-me a transformar a lista neste post.

Há um número crescente de projetos inovadores acontecendo no movimento Software Livre relacionados a web, federação, autonomia e mobile. Cada um deles tem potencial real de revolucionar a Internet ou, mais precisamente, as nossas vidas pessoais, profissionais e as empresas.

Se o movimento conseguir aproveitar a vantagem com que já está partindo para quebrar o velho modelo, essa área pode explodir e projetar o software livre como nunca antes. As iniciativas abaixo já estão gerando novos modelos de desenvolvimento e de negócio, simultâneamente ao que revelam sentidos mais profundos de liberdade para o software.

Parece-me fundamental, neste momento, trazer isso para conhecimento do público e dos desenvolvedores brasileiros, que às vezes sinto estarem comendo bola nessa direção, especialmente por ser uma área que está nessa transição para abrir-se como negócio lucrativo ao mesmo tempo em que tem aspectos técnicos extremamente inovadores e finalmente resolve questões éticas com as quais estamos nos debatendo há alguns anos.

Eis a lista de convidados sugeridos, trocado o destaque do nome para os projetos....

StatusNet

http://status.net/

Evan Prodromou

Desenvolvedor do StatusNet - plataforma microblog federada AGPL - e da empresa homônima que vende redes federadas como serviço autônomo.

http://evan.prodromou.name/

Se não puder vir o Evan, peçam pra ele indicar alguém - o statusnet é talvez a rede federada de maior sucesso e relevância depois de email e XMPP.

XMPP/Jingle

http://xmpp.org/

Peter Saint-Andre

Falando em XMPP, que tal convidar o Pierre da XMPP Strandards Foundation e administrador do Jabber.org?

https://stpeter.im/

Media Goblin

http://mediagoblin.org/

Christopher Allan Webber

Desenvolvedor do MediaGoblin - plataforma multimídia federada AGPL - e engenheiro de software da Creative Commons.

http://dustycloud.org/

Se não puder vir o Chris, peçam pra ele indicar algum outro desenvolvedor, tem uma galera forte no MG.

Own Cloud

Algum desenvolvedor do Owncloud - plataforma AGPL para dados pessoais e aplicativos autônomos - que já está sendo vendido como serviço autônomo.

http://owncloud.org/

remoteStorage (Unhosted)

Se rolar também tragam alguém do Unhosted, projeto que está criando protocolos e bibliotecas (remoteStorage) para aplicativos web usarem dados remotos, viabilizando autonomia dos dados.

http://unhosted.org/

Diaspora ou Friendica

Também acho que vale a pena chamar alguém desses projetos, especialmente se o Evan, o Peter ou o Christopher não puderem vir.

http://diasporafoundation.org/

http://friendica.com/

Mobile

Como não dá pra falar de computação sem considerar dispositivos móveis, vale notar também o progresso das plataformas móveis que buscam internalizar os princípios do software livre, federado e autônomo, em sua constituição - ainda que a maioria das demais já tenha na web um ponto de compatibilidade.

O mercado mobile nasceu já em forma de cartel e é violentamente controlado pelas operadoras, e as empreitadas do software livre até então não lograram sucesso, porém falharam gloriosamente indo sempre um passo adiante. Com o amadurecimento dessas e o sucesso do Andoid, empurrado pelo gigante que o desenvolve, há sinais de que esse mercado está mais preparado para receber software livre.

Atualmente a Mozilla vem trabalhando no desenvolvimento do Boot2Gecko, e a Intel com a Linux Foundation no Tizen - herdeiro do Meego e, através deste, do Maemo e do Moblin. Também a Canonical vem aprontando algo nessa direção.

https://www.mozilla.org/en-US/b2g/

http://www.ubuntu.com/devices/android

https://www.tizen.org/

Infraestrutura

Antes de encerrar esta lista, há uma última direção importante de mencionar, que é a infraestrutura livre de computação distribuída para garantir que os provedores federados e autônomos possam dar escala a seus serviços de forma eficiente e confiável.

Dois projetos que merecem atenção aí são o OpenStack e o OpenCompute, ambos relacionados a padronizar hardware e software abertos para esse fim.

http://openstack.org/

http://opencompute.org/

Bem, é isso aí! Evidentemente não estou aqui pra dizer que esses projetos são mais importantes que outros similares, ou que eles abordam um problema mais importante do que, por exemplo, edição de vídeo não linear ou desenho para engenharia, mas eles focam uma área pervasiva que se aproxima de um ponto crítico onde a direção tomada terá grande significado social, político e econômico.

Abraços,

ale

.~´

 

Palavras-chave: autônomo, federado, fisl, livre, software livre

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Fevereiro 27, 2012

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Ni!

Florian Cramer (DE/NL) The German WikiWars and the limits of objectivism from network cultures on Vimeo.

Acabei trombando com este vídeo por uma mensagem do Roberto Winter na lista do curso Futuro da Informação. Nele o palestrante argumenta que a Wikipédia é uma construção de inspiração neoliberal baseada no objetivismo filosófico de Ayn Rand, justificando-se num raciocínio sobre a forma de funcionamento da Wikipédia - e do Software Livre - e nas inclinações filosóficas de seus dois fundadores, em particular de Jimmy Wales.

Há alguns problemas sérios na argumentação do sujeito, que destaco abaixo, numa revisão ponto a ponto dos argumentos levantados no vídeo...

O vídeo começa com o palestrante contrastando um suposto potencial transformador da Internet com o que seria a realidade. Há já aí alguns enganos.

Confundir autores de filosofia inspiracional, como pierre levi, com análises rigorosas e realistas da questão da colaboração. -- Sem nenhum demérito para o que esses autores fazem, as obras deles não tem como objetivo entender o presente a partir dos fatos da realidade, mas apontar destinos potenciais, para serem perseguidos ao avançarmos e que, sem prejuízo, acabarão em outra forma que não a imaginada.

A partir disso, dizer que a wikipédia e software livre são as únicas formas de coautoria em larga escala efetivas na Internet, desconsiderando os vastos repositórios de cultura e tecnologia gerados por redes par-a-par, apenas porque estes não se enquadram em uma definição extremada e inspiracional que nunca teve como objetivo descrever a realidade - ou por desconhecimento mesmo.

Em particular, parece que ele nunca escutou hiphop, nem visitou um hackerspace, ou acessou uma imageboard, e abre o youtube só para canais de grandes produtoras. Não entendeu que a produção par-a-par na troca de arquivos é precisamente o mesmo processo operando numa outra categoria, nem nunca recebeu um demotivator, nem percebeu que expressões concretas não são o único objeto passível de remix, internet memes e tais.

Por fim, chegando ao assunto, ele trata a Wikipédia como uma criação intencional e exclusiva de um ou dois indivíduos, e salta a sugerir que a ideologia desses membros fundadores contamina de tal maneira sua natureza que todo resultado do processo é uma manifestação dessa ideologia.

Bem, basta investigar para ver que a primeira afirmação é falsa e que a segunda é ilógica. A Wikipédia não foi a criação programada e intencional de dois indivíduos obcecados por uma ideologia única e, mesmo que fôsse, isso não implicaria que seu resultado será uma manifestação inescapável e exclusiva dessa ideologia.

Ele então afirma que o conceito de Ponto de Vista Neutro da Wikipédia é um produto do consenso atingível pelo diálogo entre visões supostas objetivas da realidade, em busca de uma objetividade extremada; quando, muito pelo contrário, ele é um consenso a respeito da soma das visões dessa realidade consideradas relevantes pelos mecanismos que a própria sociedade já desenvolveu e mantém com o fim de atribuir relevância e confiança às informações, como a academia e a imprensa.

Acho difícil alguém argumentar que a academia e a imprensa são construções neoliberais do objetivismo randiano ;-)

Depois ele vai dizer que o Software Livre tem por natureza ser genérico. Mas isso não é uma particularidade do Software Livre, e sim uma ideia básica da engenharia de software ou, mais geralmente, da engenharia. Os sistemas UNIX tem tanto sucesso justamente por serem feitos de componentes reutilizáveis, minimizando o esforço repetitivo de produção e depuração, independente de serem UNIXes livres ou proprietários. Um tijolo é algo genérico, assim como as pedras das pirâmides.

Após isso, faz alguma alusão sobre a wikipédia ser genérica e sugere que a Wikipédia é crucial para o Pagerank do Google. Bem, ou ele não sabe como funciona o Pagerank, ou ele não se expressou claramente. O Google usa dados da Wikipédia, mas não é algo crucial.

Depois ele identifica, sem nenhuma explicação, a opção por modularidade e interfaces genéricas no software - e portanto nas pirâmides - com o objetivismo filosófico, ao invés de reconhecer que trata-se de uma mera questão de bom senso no emprego do trabalho, perdendo-se na sopa de palavras.

Só resta concluirmos que Ayn Rand era uma viajante do tempo! :D

Por fim, ele passa o resto do vídeo viajando nessa sopa que ele preparou, onde objetivismo randiano neoliberal está equacionado com escolhas de bom senso em engenharia e onde ponto de vista neutro é entendido como consenso objetivista e não como a coleção dos pontos de vista considerados válidos pela sociedade através de instituições que predatam o objetivismo séculos, se não milênios.

E para justificar esse raciocínio, ele aponta muito brevemente a existência de alguns casos na Wikipédia alemã onde, segundo ele, há problemas profundos de escala no processo, mas não oferece nenhum exemplo concreto de como ele descreveria esse objetivismo afetando a tomada de decisões. À parte, ignora que a Wikipédia em língua inglesa mesmo sendo muito maior não sofreu da mesma forma, ignora que há diferenças profundas em como a wikipédia em diferentes línguas organiza-se e que, dentre todas, a alemã é muito particular - e não numa direção objetivista randiana, até porque qual alemão vai dar bola pra uma pop-filósofa norte-americana? - e ignora, por fim, que a tal "guerra" na wikipédia alemã teve fim.

Pra encerrar a palestra, ele ainda categoriza como "bizarro" o conhecimento que não cabe numa enciclopédia britânica e o software que uma microsoft não desenolve. Bem, com isso, se não demonstra que a wikipédia é randiana, ao menos revela-se um novo tipo de fundamentalista estético ;)

E aí entra a aluna dele, faz uma alusão sem grandes méritos a Brecht, e aponta que as pessoas devem ter uma olhar crítico para a informação da wikipédia, como se isso fôsse uma novidade! Era um bom momento para sugerirem também um olhar crítico sobre eles mesmos, pelo menos salvaria o Brecht.

Ela passa daí a mostrar um trabalho focado no "quem escreveu", onde ignora-se todo o contexto do processo de revisão par-a-par a posteriori em ação na enciclopédia, que constringe a atuação individual e frequentemente tem mais protagonismo que o autor em si.

A ideia da teatro é muito chamativa, mas uma sequência de edições não é uma expressão dialética, os atores não são apenas quem editou, e o produto final não é um diálogo, mas uma enciclopédia. Que é escrita nessa voz, mais uma vez, desde séculos antes do neoliberalismo ou randianismo serem concebidos.

.~´

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Janeiro 21, 2012

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A capacidade de testar ideias sobre o mundo e recombiná-las inteligentemente forma a base da ciência, observou Thomas Kuhn em meio ao século passado. Muito antes, Darwin descreveu a capacidade de organismos competirem no ambiente e recombinarem-se adaptativamente como a base generativa da vida. Ambos os processos, eles próprios resultantes de longa evolução, dependem fundamentalmente da recombinação de padrões, expressos em linguagem científica ou genética.

Quando Turing concebeu o computador moderno, originou-se ali um outro sistema onde novos padrões, os softwares, comportavam-se com características similares. Dessa vida primitiva nos mainframes acadêmicos e militares à sua presença abundante permeando as interações entre quase todos os seres humanos, o software sofreu diversas transformações na sua forma de produção, derivadas de dois conflitos particulares à sua natureza:

Primeiro, porque o software tem a peculiaridade de ser tecnologia e informação ao mesmo tempo, o que transfere à informação a característica alienante da tecnologia: aquilo que você pode utilizar sem compreender.

Segundo, porque por ser uma manifestação codificada, acabou circunscrito por uma legislação concebida para outros fins, aplicada levianamente para restringir ainda mais seu ciclo de vida informacional.

Nesse contexto, a propriedade de livre recombinação, fundamental para a evolução dos ecossistemas, foi gravemente ameaçada.

Mais grave do que isso, aos poucos ficou evidente que a primeira forma de restrição à recombinação tinha um efeito secundário, de inibir a própria competição em si, eliminando de uma vez os dois pés do processo evolutivo.

Na década de 80, quando essas contradições começavam a atingir amplamente a sociedade, Richard Stallman concebeu o que chamou de Software Livre, referindo-se a um método para preservar o ecossistema de código recombinante que existia.

Formaram-se assim dois ecossitemas contraditórios regulando cada vez mais o fluxo e processamento da informação mundial, informação que, nesse mesmo período tornou-se o bem mais valioso da economia global.

Nessas condições, esses ecossistemas, o do Software Livre em oposição ao do software proprietário, impõem crescentemente à sociedade desenvolvida em seu meio as próprias características que os organizam.

Assim, mais do que uma estratégia evolucionária de sobrevivência, essa questão ética foi uma das principais motivações dos pioneiros do Software Livre.

Em 2002, cerca de vinte anos após dar início ao movimento, o próprio Stallman publica uma coletânea de ensaios seus entitulada, assertivamente, "Software Livre, Sociedade Livre".

Nessa mesma época, um advogado chamado Lawrence Lessig publica um livro chamado "Código" explicando, se não pela primeira vez, ao menos com uma clareza sem precedentes, como o software gradativamente substituirá o papel do direito em muitos aspectos da sociedade.

A questão do ecossistema do software torna-se, então, uma questão ética e política, que interessa não apenas a programadores - ou /hackers/ - mas a todos os seres humanos.

A computação partiu o mundo em dois e criou um novo espaço, onde convivemos entre nós e com as máquinas. Como nas grandes navegações, esse novo mundo acabará por fundir-se com seu genitor e, quem sabe, até suplantá-lo.

Se falharmos em garantir ali os mesmos mecanismos contra a elitização do conhecimento e do controle dos recursos e das leis, promovendo sua recombinação e experimentação aberta e participativa, estaremos condenando junto todas as lutas por justiça e solidariedade neste mundo.

Ni!

Texto usado como guia para uma aula no Curso de administração de redes GNU/Linux do LabMap, no IME-USP, em 20 de janeiro de 2012.

Palavras-chave: aula, ciencia, darwin, ecossistema, ime, kuhn, labmap, lessig, livre, software, software livre, stallman, usp

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Outubro 17, 2011

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Ni!

Caros, começou essa semana uma batalha tecnológica que direcionará o futuro da condição humana.

A Microsoft - e seguramente não está sozinha nisso - está pressionando fabricantes de hardware a produzir computadores que, por construção, só rodem os sistemas operacionais que o fabricante autorizar previamente. A primeira consequência disso será a dificuldade ou até impossibilidade dos usuários sequer optarem por um sistema operacional livre, como o GNU/Linux.

Permitir o avanço dessa prática significa que, muito em breve, pode se tornar difícil, se não impossível, adquirir um computador sem tal mecanismo de controle ou que permita desativá-lo, e há notícias de que alguns fabricantes já pretendem impedir a sua desativação.

Mais claramente, parte dos nossos cérebros - o vulgo computador - será necessariamente controlado por uma empresa, sem sequer a possibilidade física de você optar por uma solução autônoma.

Peço-lhes, assim, que considerem assinar o documento abaixo, tornando público o compromisso de não adquirir um computador que implemente e vede desabilitar esse sistema de controle:

http://www.fsf.org/campaigns/secure-boot-vs-restricted-boo

A única coisa a tornar-se mais segura com tal restrição absoluta é o negócio dessas empresas, ao custo de liberdades básicas que nos definem como humanos.

Obrigado pela atenção e, peço-lhes compartilhar esta mensagem.

 

ale .:.

Palavras-chave: direitos humanos, liberdades fundamentais, restricted boot, secure boot, software, software livre

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Junho 28, 2011

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Ni!

ATUALIZAÇÃO (07jul): a disciplina já aparece no Janus!

Caros amigos colegas,

É com muita alegria que compartilho a notícia da reativação da disciplina Informação, Comunicação e a Sociedade do Conhecimento, criada pelo professor Imre em 1999 e por ele lecionada até 2008, no Instituto de Matemática e Estatística da USP, e convido-os a participar e divulgá-la entre seus alunos e colegas.

A disciplina é oferecida neste segundo semestre simultaneamente para a graduação e pós-graduação, com os códigos respectivos MAC0339 e MAC5800, e aceita alunos de todas as unidades, assim como alunos especiais e ouvintes. Seu horário será segunda e quarta-feira das 14h às 15h40m.

(Ciente da passagem do primeiro período de matrículas da gradução, encaminho esta mensagem com efeito aos alunos de pós-graduação e, também, na oportunidade do segundo e terceiro período de matrículas da graduação.)

A proposta da disciplina é elaborar os principais temas e exemplos onde a computação afetou a capacidade humana de colaboração e compartilhamento, em profundidade de investigação teórica e prática, com o desenvolvimento de pesquisas e projetos pelos alunos.

Estudar a organização da Wikipédia, do Software Livre, da infra-estrutura da Internet, a economia e teoria política da informação, as licenças colaborativas de copyright e patentes, as tecnologias capilares (peer-to-peer) para o compartilhamento de informações, o impacto desses processos na educação e produção de conhecimento, a criptografia e certificação na gestão de identidade e crédito, a relação entre blogosfera e jornalismo, o desenvolvimento de hardware aberto, a sociedade modelada como sistema complexo, as questões políticas e potencial democrático da rede, e também práticas colaborativas anteriores à Internet, como a própria Ciência e outros arranjos comunitários.

Contaremos, no decorrer das atividades, com a participação de professores e pesquisadores de diversos institutos da USP, do seu Centro de Competência em Software Livre, e também de outras universidades, movimentos sociais, instituições e centros culturais.

Além disso, o conteúdo produzido no curso será desenvolvido publicamente em plataformas de colaboração com uma licença livre (CC-BY[-SA]), como a Wikipédia e Wikiversidade, para que possa ser recombinado, resignificado e ofereça aos alunos a experiência de sua própria proposta.

Por fim, dentro de um programa a que chamamos Lab Escola Imre Simon, a disciplina ocorre em dueto com o ciclo O Futuro da Informação, organizado em centros culturais no semestre complementar, cujo registro da última instância podem conhecer aqui:

http://pt.wikiversity.org/wiki/O_Futuro_da_Informação/CCESP_2011

Peço a todos o apoio na divulgação e também convido-os a colaborar na construção dessa iniciativa que, em sua história, já conta com a participação de todos vocês.

Qualquer dificuldade de matrícula ou em encontrar as disciplinas nos sistemas - a de pós-graduação, por exemplo, só aparecerá com o início das matrículas - entrem em contato comigo neste blog ou pelo e-mail <abdo@member.fsf.org>.

Saudações e paz e amor,

ale
.:.
Dr. Alexandre Hannud Abdo
Pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz
Professor convidado do IME-USP

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Ni!

A SBF, que ainda ostenta com mérito algumas glórias, tem se tornado palco para propostas de idoneidade duvidosa.

Não apenas seus processos decisórios andam pouco visíveis aos membros, tendo avançado pouco dentro das atuais tecnologias de comunicação, como vem perseguindo recentemente duas atitudades inaceitáveis.

Primeiro, já concretizada, fechou o acesso ao Brazilian Journal of Physics a não membros, quando o único propósito legítimo da existência de tal revista é destacar a física brasileira ao mundo exterior.

Vejam a discussão extremamente urgente iniciada pelo professor Paulo Murilo Castro de Oliveira.

Segundo, ainda em discussão, a SBF vem apoiando algo que pode entrar para a lista dos grandes retrocessos históricos do desenvolvimento científico e tecnológico do país: o apoio à reserva de mercado através da regulamentação de uma suposta profissão de "Físico".

Defendem-se na base do imediatismo tupiniquim, dizendo que irão apenas dar acesso a físicos à atividades já reservadas a engenheiros.

Porém, ao criar-se uma regulamentação e as estruturas burocráticas e conselhos que irão implementá-las, autoriza-se e sedimenta-se ainda mais as reservas de mercado, estrangulando a luta justa e direita que seria por extinguir tal instrumento onde necessário para benefício dos físicos.

Reservas de mercado são uma abominação. Elas vão contra a meritocracia, vão contra a interdisciplinaridade, vão contra a economia de mercado, contra a gestão eficiente de recursos humanos, contra as liberdades individuais, e consultando quem acredita ainda constatar-se-á que vão contra o socialismo e contra Deus!

É uma ideia anacrônica que só interessa a conclaves, cabalas e cliques de politiqueiros e burrocratas de visão de curto alcance buscando promoção imediata de seus interesses e imagem pública.

Quando até dos jornalistas, ainda acordando para a realidade do século, extinguiu-se a reserva de mercado em sua área, a SBF flerta com a ideia de estimular essa monstruosidade, ao invés de aproveitar o impulso para combatê-la.

Há mais de um ano, segundo as atas das reuniões, não se tem notícia do progresso da proposta de regulmentação.

Mas a história contada pelo Prof. Paulo, de como deu-se o cerceamento do acesso ao Brazilian Journal of Physics, mostra um pouco do ambiente propício a ideias promíscuas que arrisca se tornar a SBF. Com isso, não é possível saber se o assunto da regulmentação esvaziou-se, para bem, ou se está sendo armado por baixo dos panos.

Uma pena que, diante de tudo isso, vários cientistas filiados e vários conselheiros continuam aceitando que se faça tão pouco de uma instituição com uma história tão nobre.

Saudações,

ale

Palavras-chave: acesso aberto, acesso negado, liberdade, reserva de mercado, sbf, vergonha

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Maio 23, 2011

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Ni!

No sábado rolou um evento MUITO legal na Matilha Cultural, do qual fiquei sabendo só de última hora e acabei não divulgando[-1].

Prévio à exibição de filmes relacionados aos conflitos no oriente médio, tivemos duas horas de teleconferência com Aalam Wassef[0], um artista egípcio que teve papel importante no encaminhar da revolução em seu país.

Ele debutou, a partir de 2005, uma tática comunicativa que foi amplamente utilizada, ao romper com a tradição egípcia de sátira metafórica e passar à indiciação direta de Mubarak e seus comparsas, mas preservando o bom humor.

Mas então, próximo ao final do bate-papo, uniu-se também à teleconferência um outro artista, Pedro Soler[1], direto da praça onde estão os manifestantes em Barcelona e em meio à gritaria.

Esse por sua vez está bastante envolvido na organização da revolução espanhola e havia antes ido ao Cairo tomar registro das manifestações na praça Tahir.

Foi um diálogo intenso, ligando as duas revoluções com este ponto distante do bananal, enquanto na rua a discreta e pacífica marcha da maconha levava paulada e gás da PM.


Mas, sobre a perspectiva de algo semelhante suceder por aqui, ainda continua pesando o fato de que essas revoluções estão ocorrendo onde foi maior o impacto econômico da crise financeira: Islândia, Tunísia, Egito, Wisconsin, Londres e agora Espanha.

Se podemos ter algo dessa natureza por aqui, enquanto a economia vai bem e o estado de bem estar social se expande, é uma questão cuja resposta vai ter grande significado, justamente por ser incerto.

Aliás, numa análise sistêmica, talvez a ótica adequada aqui seja a de que a revolução já tenha acontecido. Chamou-se "Diretas Já" e até agora rendeu-nos um coronel democrata, um playboy matador de marajás, um sociólogo neo-liberal, um líder sindical corporativista e uma guerrilheira desenvolvimentista.

O brasil é, afinal, o país do surrealismo e das contradições ;D

E talvez por isso mesmo, pra continuarmos absurdos, façamos mais uma revolução... "só pela graça".

Abs :)


[-1] http://www.matilhacultural.com.br/programacao-matilha-cultural/cinema/ite

[0] http://ahmadsherif.wordpress.com/
 "Ahmad Sherif" era o pseudônimo com que se protegia antes da revolução

[1] http://root.ps/
 tb conhecido por qdo dirigiu o centro de artes http://www.hangar.org/


~*~

Palavras-chave: cultural, egito, espanha, matilha, revolução, teleconferência

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Fevereiro 28, 2011

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Ni!

Olá mundo,

Estão abertas as inscrições para o ciclo de aulas-debate O Futuro da Informação: compartilhamento, colaboração e a sociedade do conhecimento, que este ano acontece no Centro Cultural da Espanha em São Paulo (CCE_SP).

Eis um pequeno texto de divulgação que escrevi...

Revoluções recombinantes – como o Software Livre, o conhecimento livre, melhor representado pela Wikipédia, e movimentos correspondentes na produção da cultura, hardware e organização social, – de suas origens em ideias iluministas e reemergência com a contra-cultura, gestaram a Internet e hoje fazem dela seu principal catalizador.

Tais revoluções apóiam-se em instrumentos técnicos e jurídicos que desenvolvem, como processos colaborativos e softwares que os integram, padrões e protocolos abertos e licenças de direito autoral, mas fundamentalmente em sua ética orientada à liberdade e à comunidade.

Em função dessas práticas, modelos econômicos e arranjos produtivos pouco explorados tornaram-se subitamente espontâneos, a ponto de em poucos anos originar grandes empresas, como a Red Hat e o Google, e fundações, como a Wikimedia e a Document Foundation.

Desse ambiente informacional recombinante surge, também, uma esfera pública interconectada, de novas formas políticas e bases democráticas: na blogosfera, em fóruns e plataformas de rede social, através de Partidos Piratas e em projetos como MySociety e Wikileaks.

Neste curso abordaremos as transformações econômicas, culturais e políticas que acompanham a Internet, através de exemplos e debates com protagonistas das mesmas. As várias teorias que nos permitem entender melhor esses fenômenos serão explicadas enquanto questionados os limites de sua validade, estimulando um pensamento crítico a respeito do mundo permeado pela rede.

Ministrado desde 2010 em centros culturais, O Futuro da Informação dá sequência a um trabalho de dez anos iniciado na USP pelo Prof. Imre Simon, em 1998. O organizador desta instância é Alexandre Hannud Abdo.

Quando

Aulas às terças-feiras das 19h às 22h, exceto nos dias do AVLab – atividade parceira do curso. Início dia 22 de março, término dia 14 de junho.

Onde

O CCE_SP fica na Avenida Angélica 1091, em Higienópolis, próximo ao metrô Marechal Deodoro. Há também vários ônibus que descem a Angélica, parando em frente ao centro.

Inscrições

Para inscrever-se, mande um e-mail para cultura4@ccebrasil.org.br

O curso é gratuito e são até 30 vagas.

Ligações

Para conhecer e colaborar com a ementa do curso, veja a página na Wikiversidade.

Há também a página de divulgação no sítio do CCE_SP.

Dúvidas ou ideias, comentem aqui ou pelo meu e-mail abdo@member.fsf.org

Um abraço,

ale

Palavras-chave: aula, CCE_SP, centro cultural da espanha em são paulo, curso, debate, escola, imre simon, Internet, laboratório, recombinação, revolução

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Fevereiro 01, 2011

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Ni!

Este texto começou, como muitos outros, duma explicação a um e-mail amigo. Desta vez do Rubens, na lista do CORO, coletivo brasileiro - e um pouco internacional - de artistas-ativistas.

Ali reproduzia-se, dentro do assunto "novo Ministério da Cultura", um argumento frequente de desconfiança sobre a Creative Commons: "a quem ela serve? Por que devemos adotar as licenças sugeridas por uma organização estrangeira? Não seria mais democrático o Estado legislar a respeito?"

Sou extremamente cético com ONGs. Encontro-me frequentemente aconselhando amigos a passarem longe de muitas delas. Também considero mal direcionado o alarde em torno de algumas ações do novo MinC, como retirar a licença Creative Commons do seu site.

Contudo, esse tipo de "suspeita" sobre a Creative Commons não tem fundamento. Não é trivial entender o porquê, mas parece-me importante neste momento.

 Qualquer lei de direito autoral, por ser um monopólio artificial realizado pela coerção do Estado, sofre de um problema sério de externalidade de rede no contexto da sua internacionalização e, por isso, passa por um processo chamado harmonização.

 Em termos práticos, esse processo implica que ou a lei de direito autoral de um país é equivalente à estadunidense, ou ela é inútil internacionalmente. Esse "é igual" fortifica-se por acordos internacionais sujeitos a sanções comerciais violentas em caso de desrespeito, efetivamente enrijecendo todo o sistema.

 Por isso, infelizmente, Estado nenhum no planeta tem como legislar inovativamente a respeito. A tal reforma da lei que se fala aqui não muda nada de fundamental, apenas afrouxa o laço. E só pode fazer isso porque o laço brasileiro, sabe-se lá por que, está apertado mais que o estadunidense.

 Por conta disso, qualquer sistema alternativo de direito de autor precisa, necessariamente, ser construído por fora do Estado e baseando-se nessa harmonização das leis atuais.

 Para piorar, por serem baseados nessas leis extremamente restritivas, os sistemas alternativos acabam sendo incompatíveis entre si.

 Essa incompatibilidade recria no nível local as mesmas externalidades que se aplicam internacionalmente, de forma que o sistema só realiza seu potencial se for único.

 Assim, pela incapacidade dos Estados de legislar e pela necessidade dessa unicidade, acaba que a também única maneira de construir alternativas realistas ao sistema atual de direito autoral é haver uma organização que faça o papel de um "governo mundial para assunto específico".

 É isso que a Creative Commons faz.

 E faz muito bem, sendo uma das ONGs mais transparentes e participativas que se tem notícia, tendo criado uma rede internacional de instituições para garantir presença e voz em todos os países onde algum grupo de ativistas tenha demonstrado interesse nesse processo, e consultando constantemente autores e acadêmicos de todo o planeta sobre os melhores rumos a seguir.

 Outro fato positivo, apesar do tanto que malhamos aquela terra ao norte, é que está sediada nos EUA. A legislação deles sobre transparência e auditoria de ONGs é extremamente avançada.

 Assim, não é exagero nem demagogia dizer que a Creative Commons serve a todos. Ela foi construída com esse propósito e está organizada para executá-lo de forma dedicada.

 Isso, porém, não significa que as licenças dela contenham todas as alternativas possíveis e imagináveis, até porque antes dela surgir já existiam licenças amplamente adotadas, como a GNU-GPL para softwares livres, que para seus fins tomam precedência sobre as CC.

 Assim também, pela sua finalidade global e seus recursos limitados, ela foca seu esforço no menor número de licenças que cubram a maior parte dos casos. Adapta, com o tempo, seu desenvolvimento de licenças para servir esse propósito.

 Bem, espero ter esclarecido um pouco a falácia do argumento "a quem serve a CC?". Como eu disse, não é trivial e ninguém deve mesmo ser censurado por questionar, mas se acharam a explicação satisfatória e de importante entendimento, agradeço se passarem adiante.

[Breve declaração: eu não represento de forma alguma a CC, nem tenho qualquer envolvimento profissional com quem a represente. Fora gostar de estudar a respeito, sou apenas um usuário das licenças que faz doações anuais para manter o projeto caminhando o mais rápido possível.]

Abreijos,

ale
b
d
o

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Janeiro 18, 2011

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Novo texto meu no Trezentos!

http://www.trezentos.blog.br/?p=4082

Resumo: Além da visão econômica e cultural, há uma outra perspectiva do direito autoral na cultura, em geral menosprezada nas discussões pela sua complexidade e sutileza: seu aspecto simultaneamente psicológico e político-ideológico, cujas consequências vem a ser ainda mais contundentes.

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Janeiro 10, 2011

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Curioso notar que na academia hoje fale-se, até celebra-se, em literatura eletrônica multimídia e interativa como fronteira do ousado e inovador.

Penso no fato que mesmo a literatura impressa tem muito mais possibilidades multimidiáticas e interativas do que os autores costumam aplicar e os críticos apreciar.

Possibilidades de multimídia literária impressa foram exploradas em graphic novels entrelaçadas com textos, como no caso de Watchmen e outras histórias do Allan Moore.

Mas outros casos de qualidade semelhante são raros, apesar da possibilidade de produção e distribuição em massa estar presente há décadas.

Mesmo o Allan Moore atualmente publica primariamente apenas texto.

Já no quesito interatividade literária impressa, havia os livros-jogo, como as séries de Steve Jackson e Ian Livingston. E depois, já com computadores, os jogos estilo Adventure que nasceram no texto e aos poucos incorporaram o audiovisual e então, nos primórdios da Internet, os Multi-User-Dungeons.

Portanto é dúbio se exaltadas proposições atuais em multimídia e interatividade literária justificam-se para além de aproveitar-se da "febre digital" para reapresentar temas já explorados como novos... possivelmente sem reconhecer tais caminhos.

Evidente que são muito mais ricas as possibilidades atuais.

Mas talvez haja uma falta de percepção do papel da literatura em manifestações ainda mais modernas, já existentes e popularizadas, como nos jogos de computador e nas franquias:

Jogadores de World of Warcraft podem passar dias contando a história de Azeroth, que eles leram dentro e fora do jogo.

Já mais e completamente interativos, fãs de Star Wars, Star Trek ou Senhor dos Anéis - para não falar em todo o universo Otaku - podem passar semanas narrando capítulos paralelos às sagas canônicas, que eles leram em livros, em jogos, escreveram de próprio punho ou representaram em sessões de Role-Playing-Games.

Assim fico em dúvida se uma literatura multimidiática e interativa muito mais rica do que os experimentalistas propõem já não está presente há tempos, em vezes até qualidade superior e mais ousada que o trabalho desses.

Agora, se trata-se apenas de atualizar o formato do livro, retorno ao começo deste texto para apontar, com certo ceticismo, que o "livro interativo multimídia" é pré-eletrônico e apenas um ponto intermediário entre a literatura pura e manifestações literárias já bem difundidas mais ricas em multimídia e interatividade. E que, como ponto intermediário, tem uma trajetória histórica tipicamente aquém de ambos seus vizinhos.

Toda experimentação é bem vinda, mas que reconheça seu contexto para que reconheça a si mesma e, assim, seja construtiva e não redundante!

Abraços,

ale
h
a

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Outubro 19, 2010

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Hum... respondendo a um link encaminhado pelo Luis, acabei comentando essa notícia do Slashdot, que aponta para uma reportagem e um artigo onde vislumbra-se uma wik-universidade que retorne às origens e blá blá blá. Já deu pra ver que eu vou basicamente meter o pau no treco. Meter o pau é esporte francês, pratique e sinta-se chic!

 

Um comentário de terceiros, já na própria página do artigo, destaca o desvio deste em não reconhecer que a universidade ainda é, e em alguns aspectos até mais hoje em dia, uma construção participativa. E dizer que tecnologias de informação podem se incorporar e reforçar isso beira a tautologia e o ululante, dado o papel fundamental das bibliotecas desde antes delas surgirem.

Esse impacto pode não ser tão profundo, até porque um sistema cheio de interesses e dependências com ritmos diferentes não se converte do dia pra noite, mas também porque as pessoas ficam discutindo tosqueiras ao invés de meter a mão no fogo pra pegar na massa quente.

 

Como o artigo mesmo menciona, ainda que novamente ignorando muito da história, tem gente buscando já há algum tempo uma solução mais "aberta" para universidades.

O autor comenta a Wikiversity, ainda que de uma maneira meio superficial. Eu já dei um curso usando a Wikiversity[fdi] e não me convenci de que ele entenda muito bem o que se passa ali.

Prosseguindo, de iniciativas abertas em algum sentido mas não colaborativas, ele comenta a Peer to Peer University[ppu], que carece de um sistema de revisão crítica, mas deixa de fora a Open University[oun], que é talvez menos aberta, mas mais abrangente e reflexiva. Estas abordam aspectos complementares do problema e complementares também à Wikiversity, que ainda falha onde essas duas tem algum sucesso: formar uma ecologia viva em torno de si.

Mas o artigo parece não reconhecer isso - foi escrito no início de 2009 e a Wikiversity, criada em 2006, era mais novidade então, mas a reportagem indica que o autor continua em tom semelhante numa conferência recente.

Por fim, no artigo é mencionada a produção de Recursos Educacionais Abertos[rea], mas apenas indiretamente ao fazer referência ao OpenCourseWare[ocw]. Isso poupa o autor de abordar de maneira concreta a questão epistemológica e faz parecer sustentável a prescrição simplista de wiki-universidade apresentada.

Ele parece pensar que a Wikipédia funciona puramente pela magia do voluntariado, sem a necessidade de um sistema de incentivo e controle que se beneficia de propriedades específicas de uma enciclopédia.

Assim, apresenta uma lista de "características" copiadas da wiki mas, ao restringir-se ao ensino e evitar abordar os problemas principais de gestão do conhecimento e confiança, não se fala nada de wiki-universidade. Abanar as mãos enquanto soletra-se "auto-organização" parece ser suficiente.

 

A questão indivisível da universidade é como integrar ensino, pesquisa e extensão numa plataforma participativa munida de indicadores para aplicação de recursos que balanceiem a disseminação de conhecimento, a produção científica e as necessidades da sociedade.

A questão da wikipédia é compilar fatos publicados em um conjunto de fontes estabelecido.

Propor que a organização da segunda se aplica à primeira apenas copiando as iniciais é surfar na ignorância alheia.

 

[fdi] http://pt.wikiversity.org/wiki/O_Futuro_da_Informação
[oun] http://www.open.ac.uk/
[ppu] http://p2pu.org
[rea] http://rea.net.br
[ocw] http://ocw.mit.edu/

Palavras-chave: universidade, wikipédia

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Fevereiro 09, 2010

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Ni!

Olá mundo,

Iniciaram-se hoje (dia 2 de março) as inscrições para o ciclo de aulas-debate inspirado no curso do nosso querido Prof. Imre Simon, que estamos organizando colaborativamente no Centro Cultural São Paulo, também conhecido como o centro cultural na Vergueiro.

Um pequeno texto de divulgação que escrevi começa assim:

Vivemos em tempos interessantes. As mesmas transformações que nos permitem colaborar e compartilhar conhecimento e cultura livremente também ameaçam nossa privacidade e abalam a estabilidade de instituições, ao mesmo tempo em que viabilizam outras formas de organização da sociedade e de construção do indivíduo (continua...)

O curso será bastante focado em exemplos concretos de práticas colaborativas e compartilhamento na rede; a proposta é aproximar o público geral e protagonistas dessas diversas iniciativas, onde todos terão um papel simultâneo de debatedores e alunos.

Alguns tópicos abordados são:

  • a dinâmica da wikipédia e do software livre
  • sociedade, conhecimento e recursos educacionais abertos
  • ecossistemas de cultura livre, coletivos de arte e ativismo
  • a web social: mercado, negócios e política na rede
  • teorias econômicas, sociológicas e modelos matemáticos

Quando

Os encontros ocorrerão nas noites de terça-feira a partir do dia 9 de março e estender-se-ão até final de abril.

A cada dia, começaremos às 19h com uma discussão do tema da aula anterior e abordaremos o tema do dia das 19h30 às 21h30, seguindo-se mais meia hora de discussão aberta.

Onde

As aulas ocorrerão na Sala Zero do CCSP, que é um espaço aberto e móvel acima da biblioteca, em meio a mostras e outras exposições, formando um ambiente super legal.

Inscrições

Segundo o site do CCSP, as inscrições devem ser feitas até dia 5 de março na Divisão de Ação Cultural e Educativa, das 10h às 17h.

Quem quiser saber mais sobre o curso pode consultar o portal do Laboratório Escola Imre Simon na Wikiversidade e a ementa colaborativa.

E se tiver alguma dúvida deixe um comentário aqui, preenchendo o e-mail conforme indicado (que só será visível para mim), ou mande um e-mail para mim: abdo "arrôba" usp "ponto" br.

Um abraço,

ale

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Fevereiro 02, 2010

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Ni!

A questão ambiental é um problema de análise de risco. Ou seja, o que conta não é a confiança em quem está certo, mas a distribuição da confiança pelo ganho ou, no caso, pela perda de cada cenário de escolhas.


Ainda que a comunidade que estuda o assunto estivesse dividida pela metade - o que não está - o produto da confiança pela perda deveria nos levar a tomar atitudes drásticas e imediatas em todos os níveis, porque a perda prevista é tão grande que, multiplicada pela confiança de metade da comunidade, sobrepor-se-ia facilmente a qualquer opinião da outra metade.

De fato o cáculo é mais complicado, mas fica simples porque as atitudes a serem implementadas são economicamente saudáveis, ou seja, levam ao desenvolvimento, potencialmente até maior, apenas por uma outra rota.

Acontece que só levam a um desenvolvimento justo entre os países se todos agirem juntos. Por isso há tanta disputa internacional, porque se todos parerem, todos ganham, mas se um não parar é preciso haver punição proporcional, pois sairá ganhando às custas dos demais.

Portanto é inteligente uma orquestração internacional para atitudes em todos os níveis contra as mudanças climáticas.

De fato, em termos desse tipo de análise, é um "no brainer".


Acontece que tais acordos exporiam países poderosos que desenvolvem-se de forma injusta e teriam de diminuir sua sede ao pote para que outros possam desenvolver-se. Ou seja, um dos grandes obstáculos é que a preocupação com o ambiente de fato acaba tornando-se um mecanismo poderoso de justiça internacional. E é por isso que esses acordos são difíceis, não porque as pessoas acham que este ou aquele cientista está certo ou errado.

A ciência já fez sua parte nesse jogo, independente dela ser conclusiva ou não. Não resta um pingo de dúvida que a ação estratégica é mudar radicalmente os padrões de desenvolvimento e de consumo para harmonizar-se com o meio ambiente.

E mesmo se surgissem amanhã evidências irrefutáveis em contrário - o que não acontecerá porque o problema com a meteorologia é justamente a dificuldade de análises irrefutáveis de médio prazo - a questão do impacto das medidas ecológicas na justiça econômica mundial levaria-nos a querer implementá-las de qualquer forma.


Tais ações ecológicas, seja a nível nacional ou individual, podem não ser necessárias para a sobrevivência dos humanos e certamente não salvam o ecossistema planetário que, neste momento, não precisa ser salvo - apesar da humanidade ter o poder atômico para destruí-lo.

Mas são a coisa inteligente e ética a ser feita em termos dos riscos e da confiança que há nos diversos cenários possíveis.

Abraços,

ale

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Janeiro 22, 2010

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Ni!

Uma reflexão sobre as dificuldades que as pessoas, especialmente novatos, encontram com o "delecionismo" na Wikipédia.

Este artigo não diz respeito à oposição entre delecionismo e inclusionismo, mas aborda a questão posterior, mas mais consequente, do que ocorre com o novo artigo ou contribuição após este ser corretamente avaliado inadequado por um contribuidor experiente.

Ou seja, o caso frequente de um artigo ser deletado de forma justa, mas com o sabor amargo de "poderia ter sido consertado ao invés de deletado".

Há muitos artigos deletados cujas fontes poderiam ser facilmente encontradas, cujo tom propagandista poderia ser facilmente neutralizado ou que, apesar de pouco relevantes, poderiam ser aproveitados como um parágrafo em outro verbete.

É frustrante quando essas eliminações acontecem, porque frequentemente o autor era bem intencionado e poderia, se bem encaminhado, tornar-se um contribuidor mais frequente no futuro. E sabemos o quanto precisamos de mais contribuidores frequentes.

 

A questão, assim, é por que não conseguimos ser mais acolhedores?

 

A resposta aparece ao considerar a Wikipédia no contexto educacional e econômico da sociedade em que é produzida: há mais pessoas que gostam de eliminar do que consertar por duas razões: requer menos capacidade e dá menos trabalho. E essas razões são destacadamente críticas em nossa sociedade, onde a maioria das pessoas tem pouca educação e trabalha demais.

Seria, evidentemente, ótimo se pudéssemos prescindir desses eliminadores (chamem como quiser) e permitir ação apenas aos aprimoradores, mas a realidade é que mesmo com ambos já é difícil manter a coerência do projeto.

Se a atitude eliminadora fosse proibída, haveria um grande risco, senão certeza, do projeto desmontar antes que aparecessem suficientes aperfeiçoadores para tomar o lugar.

E por mais que existam por aí suficientes potenciais aprimoradores, essa proporção estabeleceu-se inicialmente assim por natureza do crescimento espontâneo do projeto.

Aperfeiçoadores são raros e leva tempo a encontrá-los. Porque a vocação necessária para ser um aperfeiçoador é muito maior e requer muito mais tempo dedicado ao projeto.

A equação é simples: {muita capacidade} * {muito tempo} = {poucas pessoas}

Portanto antes de poder se dispensar os eliminadores precisa se aumentar o número de aperfeiçoadores.

Reclamar dos eliminadores achando que com isso se os converterá em aperfeiçoadores não funciona, porque na produção social cada um faz aquilo que gosta, pode e tem competência para fazer.

E já vimos que essa combinação, para aperfeiçoadores, será sempre difícil de obter. Claro, que não se perca a esperança de mudar os indivíduos, mas também não se acabe a combater moinhos.

Mas conseguindo crescer o número de aperfeiçoadores, quando houverem suficientes deles os eliminadores vão simplesmente ficar sem o que fazer, e vão achar outra tarefa.

Alguns eliminadores vão até converter-se aperfeiçoadores, mas a maioria é provável que busque atividades mais independentes.

O que precisamos entender é que, dado o atual equilíbrio, se ganha muito pouco criticando eliminadores.

O necessário é dar estímulos e oportunidades para aperfeiçoadores, e esperar, lentamente, que eles surjam.

E ainda que a atividade dos eliminadores retarde esse surgimento, no presente momento não muda nada criticá-los.

Tanto que o melhor caminho para superar essa situação pode nem reconhecer tal dicotomia. Não há como prefer se um novo contribuidor será uma coisa ou outra. Até que haja suficientes aprimoradores, há apenas de se buscar receber os novatos já evitando que problemas e frustrações surjam. E talvez isso seja o ideal em qualquer tempo.

 

Deixo aqui então uma sugestão: tornar mais direto e incentivar ostensivamente o contato de novatos com tutores.

 

Atualmente, é preciso editar sua página de usuário e aguardar, quando mesmo editar páginas de discussão é muito difícil para um novato.

Diante disso, penso que alguns tutores deveriam frequentar o canal de IRC da Wikipédia lusófona, que pode ser aberto com um click do mouse, e que um link para esse canal deveria constar destacado no cabeçalho das páginas de edição da Wikipédia.

Assim, toda pessoa editando uma página seria diretamente convidada a conversar imediatamente com um tutor. Só esse fato já evitará a grande maioria dos conflitos, além de permitir adornar outros com a observação: "mas você perguntou a um tutor como recomendava o cabeçalho da página que editou?"

Introduzir radicalmente esse elemento de diálogo melhoraria muito a experiência dos novatos, além de proporcionar uma interação mais envolvente com o projeto, com potencial de extender-se a contribuições mais duradouras à Wikipédia.

Abraços,

[[Usuário:Solstag]]

~~

Palavras-chave: análise, delecionismo, reflexão, sugestão, tutor, wikipedia

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Novembro 13, 2009

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Ni!

O Governador José Serra deve em breve anunciar o fim da sequência de reitores democraticamente eleitos e instalar um Interventor Biônico na Universidade de São Paulo.

Conforme apurado pela Folha de São Paulo[1,2], o Professor Glaucius Oliva, primeiro colocado nas eleições com 161 votos, 57 a mais que o segundo colocado, foi preterido pelo governador em favor do Professor João Grandino Rodas.

Segundo a lei, o governador pode escolher qualquer dos três candidatos mais votados. O espírito da lei, contudo, reflete-se em que tal fato não ocorre desde a ditadura militar, quando o então governador biônico do Estado, Paulo Maluf, ignorou de maneira semelhante a maioria da comunidade universitária.

[1] http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u651773.shtml

[2] http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u651046.shtml

O Professor Rodas, estipulado Interventor Biônico da USP, é mais conhecido por requisitar a intervenção da Polícia Militar na Universidade[3] e por ter sido o único candidato à reitoria não interessado em expôr sua opinião sobre o acesso público ao conhecimento[4].

Em breve, será reconhecido também pela falta de caráter, como jurista, ao assumir um cargo público usurpado em flagrante desrespeito ao espírito da norma como utilizada pelo governador Serra.

[3] http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u321990.shtml

[4] http://www.gpopai.usp.br/wiki/index.php/Respostas_dos_candidados

Parabéns USPianos e boa sorte!

~~

Palavras-chave: biônico, interventor, reitoria, rodas, serra, universidade

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Setembro 24, 2009

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O discurso ecológico corrente, dentro ou fora do capitalismo, é antropocêntrico. A razão é que a própria idéia de natureza é antropocêntrica.

A ecologia não antropocêntrica não se incomoda com a atividade humana; ela não vai parar, nem suspirar, se o "homem" destruir a "natureza" e a si mesmo no processo.

A idéia toda de que a atividade humana é "problemática" só pode ser definida em termos do homem.

Biodiversidade? Interessa a quem? E que biodiversidade?

Ao homem. Aquela à que ele está adaptado.

A história da vida na terra passou por períodos de maior ou menor diversidade biológica e não por isso esteve a perigo, apenas tomou caminhos diferentes.

Se as baleias extinguirem-se, outra forma de vida tomará seu lugar para aproveitar os recursos naturais disponíveis. É muito triste pras baleias deixarem de existir, mas por que não é ainda mais triste essa outra forma de vida sequer ter a oportunidade de existir?

Ainda se a substituta for uma forma de vida já existente, por que dois seres vivos com uma parte do código genético diferente é melhor que dois com aquela parte do código genético, ou mesmo todo ele, igual?

E por que esse padrão só se aplica à "natureza" e não ao homem? Ou vamos impôr cotas de reprodução humana e punir gêmeos idênticos?

E mesmo essas perguntas já são afetadas pelo antropocentrismo.

A sustentação da biosfera não precisa de nenhum animal explorando aquele recurso naquele momento. De fato, enquanto houver um Sol, e portanto pelas próximas eras e eras, a vida e a diversidade na terra está segura até dos piores pesadelos nucleares.

E nem mencionamos os fungos - que crescem até na estação espacial - e as bactérias - que podem viver tanto em pessoas como em vulcões - onde está a maior parte da diversidade e que não corre risco nenhum com a atividade humana.

E se tudo isso acabar? Bem, a Terra volta a ser como os inúmeros planetas espalhados por aí, dançando na ciranda do universo.

Assim, a "questão ecológica" é inevitavelmente antropocêntrica, criticar o antropocentrismo por estar presente é absurdo. Contudo, permanece válida a crítica da máscara posta sobre esse antropocentrismo.

Enquanto não se formular o problema deixando claro como e onde o antropocentrismo entra na história, a sociedade não poderá discutí-lo honestamente e chegar a uma solução ética e democrática.

Conversamente, enquanto insistir-se em esquivar-se do antropocentrismo inerente à questão, colocando o foco na "natureza" como se essa já não representasse o homem, continuaremos incapazes de uma discussão honesta e a agenda política permanecerá manipulada pelos grupos que controlam a mensagem.

Recomendo dar uma olhada na abordagem do tema por alguns professores atuais interessantes como Timothy Morton e Slavoj Zizek:

Morton

Zizek

Abreijos,

ale

~Ni!~

OBS: Esse post é algum tipo de diálogo com este outro do Andre, mas que ficou muito denso para um comentário.

Palavras-chave: antropocentrismo, ecologia, natureza

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Julho 26, 2009

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Ni!

No início deste mês o PLoS ONE, importante periódico científico de acesso aberto, publicou uma investigação ampla de dezenas de métodos para calcular a relevância de publicações e trabalhos científicos:

A Principal Component Analysis of 39 Scientific Impact Measures

Há vários detalhes interessantes, mas uma das conclusões centrais é que o Fator de Impacto (JIF), utilizado por diversas instituições brasileiras para atribuir relevância a trabalhos científicos, é uma medida periférica de reação lenta da popularidade.

Ou seja, não entra em acordo com outras medidas, mede o quanto os artigos são populares e não prestigiosos, e reflete tendências da  rede de citações apenas a longo prazo.

Outro mérito desse artigo é justamente conseguir derivar uma classificação semântica das medidas, nessas linhas "periférica/central", "popularidade/prestígio" e "reação lenta/rápida".

 

Já passou da hora da comunidade científica cobrar o abandono definitivo de medidas como o JIF. Há alternativas superiores e provas inequívocas de que o JIF privilegia as pesquisas erradas.

Mas não se deve perder de vista o passo adiante. Abandonar o JIF seria apenas um paliativo. O que é necessário é caminha na direção e uma avaliação participativa e transparente da ciência, que preveja uma multiplicidade de prioridades e use adequadamente essas medidas de impacto, ao invés de abusá-las para instalar uma numerocracia que só interessa a burocratas preguiçosos e interesses privados.

Abreijos,

abdo

~~

Palavras-chave: cnpq, fapesp, fator de impacto, impacto científico, instituições científicas, numerocracia, Open Access, plos one, usp

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Abril 28, 2009

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Ni!

Todo o conteúdo desta página é de inteira responsabilidade do usuário. O Stoa, assim como a Universidade de São Paulo, não necessariamente corroboram as opiniões aqui contidas.

Sugiro a remoção imediata desse aviso do final de todas as páginas do Stoa, com a finalidade de adequá-las à realidade.

A essa altura já são algumas mensagens a respeito do ocorrido:

Comentário a respeito do "Sobre uma falsa notícia veiculada no Stoa"

CENSURA NA USP?

Vou assim apenas resumí-lo no próximo parágrafo.

O Tom, um ex-aluno desta universidade e amigo meu, expressou-se numa mensagem, no fórum de uma comunidade do Stoa, utilizando-se da sua conta pessoal obtida com seu número USP, como a de todos nós, num espaço de diálogo independente, dentro de um sistema que prega ostensivamente que seu conteúdo é de responsabilidade individual e não representa em nada a universidade.

A mensagem dele foi de crítica política, utlizando-se de um recurso lúdico reconhecido universalmente, o "primeiro de abril".

Claríssimo e indisputável: ela não machucou nem ofendeu ninguém. Não configura calúnia nem prejuízo senão numa interpretação indigna dos princípios intelectuais que regem esta universidade.

Sabidamente divertiu muita gente, eu inclusive.

E o que acontece?

Ele foi ejetado do sistema, tendo sua conta, todos as suas mensagens e os comentários de outrem nelas removidos sumariamente.

Por quê?

Até onde sabemos, por ordem da reitora Profa. Suely Vilela (terá ela assessores monitorando o Stoa?).

Seguiu-se um pedido (embaraçoso) de desculpas de parte da administração do Stoa, assinado pelo Prof. Ewout ter Haar, aparentemente por exigência da reitora ao Prof. Gil da Costa Marques, já que ele é o responsável pelo centro que desenvolve o Stoa, mas que estranhamente não assina junto.

O que entender disso?

O que, senão que quem deve pedir desculpas aqui - ou ao menos dar algum esclarecimento - é a própria reitora, admitindo o erro. Alternativamente, demonstrando ter sido outro o final responsável por esse abuso.

Caso contrário, implicitamente admitiremos que o regimento da universidade confere a ela o privilégio de punir arbitrariamente quem exerça a liberdade de criticá-la, ou a seus associados políticos. Está claro que já o desejam.

O fato é absurdo.

Indisputável a ironia, da crítica do usuário ser à amplamente reconhecida intenção dos personagens envolvidos de privatizar, ainda que de forma indireta, esta universidade.

A atitude da reitoria mostra que a reitora já considera a universidade privatizada: para ela. Faz o que quer, abandona o bom senso, a razão, o Scientia Vinces pelo Deus Salve a Rainha!

O que fazer a respeito?

O walrus, que acabou de publicar uma série relevantíssima de artigos que engradecem e destacam o mérito deste espaço, irá deixar o Stoa. Estou seriamente pensando em fazer o mesmo.

Mas será suficiente?

Os erros deste gestão da USP se acumulam de forma desastrosa: interesses particulares estão certos, autonomia está errado; plágio está certo, liberdade de comunicar idéias está errado; e logo virão os absurdos na reforma estatutária, como limitar pela metade o aproveitamento de créditos para transferência interna (afinal a disciplina que você cursou na USP não é boa o suficiente pra... USP?) - pra pegar um exemplo leve.

Lamentavelmente parece que precisaríamos de um Obama para reverter os danos dessa era Bush.

A USP não é especial, é apenas (um pouco) antiga. E está se mostrando envelhecida, quando combinar tradição e juventude é o principal ingrediente das grandes Universidades.

Não há nada mais danoso que a subração do direito de comunicar idéias. Não há nada mais perigoso que de quando esse direito não é defendido.

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Abril 20, 2009

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Ni!

Dois artigos imprescindíveis do Excelentíssimo Reitor da UFBA, Naomar de Almeida Filho:

 Universidade: perversões da autonomia

 Universidade: obediência versus excelência

Alunos da USP, CUIDADO: ver uma universidade com uma direção corajosa, lúcida e atualizada pode matar de inveja.

Lembrando que a UFBA vem tomando iniciativa no movimento Universidade Nova, e este ano já admitiu alunos para seus ciclos básicos de Bacharelados Interdisciplinares.

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Palavras-chave: autonomia, autonomia universitária, interdisciplinar, reitor, ufba, universidade nova

Postado por Alexandre Hannud Abdo | 4 usuários votaram. 4 votos | 1 comentário

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